The Ogun Collection

Blue Notes: “The Ogun Collection” (Ogun)

Ogun

Gonçalo Falcão

«Whites only», dizia a tabuleta. Cheguei à praia no Cabo e uma placa em madeira dizia que era para mim só porque sou branco. Isto pode parecer estranho nos dias que correm, mas a verdade é que a primeira vez que fui à África do Sul havia praias para brancos e para negros, autocarros para brancos e negros. Johanesburg – que parecia Nova Iorque em África - ficava deserta a partir das cinco da tarde porque os negros não podiam permanecer na cidade e os que tinham autorização especial para o fazer tinham de ficar dentro de casa.

E isto foi há pouco tempo. Ainda hoje esta herança de segregação nos pesa a todos na consciência. De tal forma que não consigo escrever «brancos e pretos», como seria lógico, mas «brancos e negros», como se a negritude suavizasse a palavra “preto”, usada durante tanto tempo para menorizar.

A Ogun continua apostada em contar um dos lados da história do jazz sul-africano e em particular dos músicos que se exilaram em Inglaterra na década de 1960 para fugir à prisão. Quem ainda não deu ouvidos a estes músicos há uma série de nomes que deve urgentemente começar a procurar: Louis Moholo-Moholo, Dudu Pukwana, Johnny Dyani, Mongezi Feza, Chris McGregor, Nikeli Moyake, Hugh Masekela, Gwigwi Mrwebi, Harry Miller, Ronnie Beer, Dolar Brand/Abdulah Ibrahim, Dumile Feni, entre outros.

Em 1964, eles rondavam os 18 anos e tinham uma consciência social que os obrigava a não suportarem calados as placas de “whites only” e a segregação racial sul-africana. Criaram um corajoso movimento que tocava para se libertar e que os obrigou a fugir do país: perceberam rapidamente que uma banda com o tipo de música que queriam praticar, com o discurso político que transmitiam e, como se não bastasse, com uma constituição multi-racial (McGregor era branco) não conseguiria sobreviver à perseguição da polícia.

Foram da África do Sul para Moçambique, daí para França (a fim de actuarem num festival) e de lá para Zurique, para o exílio. Nos anos 60, a estranha mistura dos Blue Notes entre free jazz e música tradicional sul-africana era completamente nova e impressionava quem a ouvia.

Era um free no qual se ouvia sempre a cor da música africana, que facilmente se encaixa em ritmos e estruturas leves, cheias de luz. Os Blue Notes dariam origem a uma série de bandas diferentes que influenciariam o jazz europeu – com destaque para Brotherhood of Breath, de Chris McGregor, e Spirits Rejoice, de Louis Moholo – e influenciaram directamente músicos europeus como Keith Tippett, Evan Parker, John Stevens e John Surman.

Esta edição da Ogun capta vários momentos da história do grupo, começando num concerto de 1964 em Durban, logo antes da saída do grupo do país (com uma gravação fraca, só para amantes), em 1975 na sala de ensaios em Londres, em 1977 ao vivo no 100 Club, com um bom registo, e, por fim, em 1987, num estúdio londrino.

Dado que, apesar do esforço da Ogun (de Harry Miller) e de outras pequenas editoras (Neon Records, Honest Jons, Fledg’ling Records, Gallo), a música sul-africana – e em particular o jazz – continua a ser sobejamente ignorada, esta edição merece um destaque especial em qualquer edição crítica de jazz que se preze. Há muito mais e melhor de onde Abdulah Ibrahim veio!

  • The Ogun Collection

    The Ogun Collection (Ogun)

    Blue Notes

    Dudu Pukwana (saxofone alto, percussão, voz, assobio); Chris McGregor (piano, percussão); Louis Moholo (bateria, percussão, voz); Johnny Dyani (contrabaixo, percussão, voz, letras) + Nick Moyake (saxofone tenor); Mongezi Feza (trompete)