Desaparecida em combate

Tiziana Simona

Desaparecida em combate

ITM Records

texto Paulo Chagas

A cantora italiana foi uma das grandes novidades trazidas pela década de 1980, mas assim como chegou, partiu. Nada mais se soube sobre este especial talento a que se associaram músicos como Steve Lacy, Enrico Rava, Mal Waldrom, Kenny Wheeler, Tristan Honsinger e Toshinori Kondo. Ficaram os discos…

Uma das coisas mais desarmantes no mundo da música é a circunstância de tomarmos contacto com personalidades fascinantes e misteriosas que nos surpreendem e encantam e que depois, simplesmente, desaparecem sem algum motivo aparente.

O jazz é um universo particularmente pródigo nesse tipo de situações e o caso desta cantora italiana é bem representativo – dona de uma voz portentosa e tendo tudo para encetar uma carreira de glória, acabaria por se eclipsar em menos de uma década.

Tropecei em Tiziana Simona completamente por acaso, em 1989, quando comprei um disco de uma parceria entre Toshinori Kondo e Tristan Honsinger, em que a italiana estava integrada. Na altura, o que mais me cativava na voz de Simona era a forma descontraída, delicada e ao mesmo tempo tensa com que atacava cada frase, demonstrando uma versatilidade impressionante que me recordava Maggie Nichols.

Simona iniciou os seus estudos musicais no princípio da década de 1980, estabelecendo um paralelo constante entre a formação clássica e o jazz/improvisação. No seu currículo académico constam vários cursos ministrados por gente importante como Giancarlo Schiaffini, Tommaso Lama, Enrico Rava e Jodi Gilbert.

O hábito de conviver com gente famosa foi uma constante na sua breve carreira, tendo começado por fazer parte do projecto This, That and the Other, no qual, além de Kondo e Honsinger (atrás referidos), encontramos o clarinetista/saxofonista Michael Moore e o contrabaixista Jean-Jacques Avenel. Com este colectivo gravou o álbum de estreia “Picnic”, em 1983, e o homónimo em 1987.

Seguir-se-ia a criação do ensemble vocal de jazz C.A.M., cuja direcção era da sua responsabilidade e com quem participaria no espectáculo teatral “Estetici  imbrogli”.

Romantismo e excentricidade

O teatro foi sempre uma actividade paralela na carreira de Tiziana Simona que, na primeira metade dos anos 80, contribuiu para importantes produções como “Ossi di Seppia”, “Musica Erotica Musica Eretica” e “Gli Ombrelli di Satie”, só para citar algumas.

Juntou-se depois à Industrial Folksong Orchestra do pianista alemão Georg Graewe, tendo em 1986 participado na gravação do único disco deste fantástico grupo que reunia John Lindberg, Gerry Hemingway, Phil Wachsmann e Ernst Reijseger, entre outros. Na mesma altura iniciou a sua ligação ao trompetista e compositor canadiano Kenny Wheeler, com quem gravou o álbum “Gigolo”, uma obra plena de romantismo e excentricidade.

Neste disco em que a ouvimos a agradecer publicamente à mãe pelos seus bolinhos, deparamo-nos com um ambiente nostálgico, mas ao mesmo tempo alentador, à boa maneira do conforto doméstico.

Baseado num combo invulgar, em que a sustentação harmónica é feita através dos contrapontos sucessivos entre o violoncelo de Giuseppina Runza, o contrabaixo de Avenel e o trompete (e fliscórnio) de Wheeler, a irrepreensível voz de Tiziana vai contando, sempre em Italiano, histórias singulares que exultam o nomadismo da vida dos artistas de rua, escritas pela própria cantora e traduzidas para Inglês no “booklet” do CD. Simona assume-se, igualmente, como compositora de metade das canções, sendo as outras da autoria de Wheeler, Rava e Honsinger.

O álbum abre com uma exposição contrapontística das cordas, sendo a faixa mais assumidamente wheeleriana de “Gigolo”. Há toda uma dimensão teatral, circense, de cabaré ou de feira que muito deve a Kurt Weill, nas deliciosas canções “Il Circo” e “Alza Gli Ochi”. Há depois o ambiente mediterrânico bem vincado de “Kind Folk”, com um soberbo solo de fliscórnio, e “Zaira Bella e Valser”, assente numa delicada melodia que quase lembra uma lengalenga infantil.

Conjugação de vários mundos

Um dos momentos altos do disco é, sem dúvida, o tema “Diva”, um dueto de voz e contrabaixo que se expande num diálogo encantador do princípio ao fim, abrindo portas para um formato de instrumentação reduzida que viria a tornar-se moda muitos anos mais tarde.

Realce ainda para o irrepreensível trabalho do baterista brasileiro Nene Lima Filho (dono de uma invejável carreira ao lado de ícones como Elis Regina, Egberto Gismonti e Hermeto Pascoal), que brilha delicadamente, pleno de criatividade e virtuosismo, ao longo de toda a edição.

Após esta fase, Tiziana Simona começaria a trabalhar com Butch Morris, participando em vários festivais europeus, nos projectos October Meeting e Fall Conduction do maestro, ao lado de Herb Robertson,  Konrad Bauer, Evan Parker,  Fred Van Hove, Leo Smith,  George Lewis e Han Bennink, entre muitos outros. Paralelamente, forma um duo com o pianista Mal Waldrom que viria a dar origem a “Flakes”.

Sob os nomes de Toshinori Kondo e Tristan Honsinger, mas com todas as composições assinadas pelo violoncelista americano, “This, That and the Other” apresentou-nos em 1987 uma conjugação de vários mundos sonoros, num produto sóbrio e vanguardista.

A secção rítmica é de grande elevação, com o contrabaixo de Avenel, na sua segurança habitual, a disparar as linhas mais impensáveis e as peles e os pratos de um igualmente seguro e criativíssimo Steve Noble, numa época não muito afastada daquela em que nos encantava com os saudosos Rip Rig and Panic.

Sem instrumento monopolizador de tarefas harmónicas, o sexteto que acompanha a voz de Simona vale-se dos cruzamentos subtilmente criados entre os naipes de sopros e de cordas para construir a partitura vertical do disco. As palhetas do americano (entretanto radicado na Holanda) Michael Moore e do sul-africano Sean Bergin são de um requinte e de um nervosismo fascinantes, criando um ambiente “vaudevillesco“ irresistível. Kondo mostra-se um músico sublime no domínio do trompete – com a vantagem de ser bastante contido no uso da electrónica, remetendo-a ao estritamente necessário e adequado.

Pêlo na venta

Por sua vez, Tiziana brilha nas alturas com uma sobriedade incrível, apresentando-se como uma cantora de “pêlo na venta” que tanto nos graves como nos agudos consegue dizer o que quer com uma confiança e uma beleza impressionantes.

Destaques para a curta suite “La Strada”, repleta de mistério e sensualidade; para o balanço afro-latino de “Crazy”, com um clarinete fascinante; para “Avevo Paura”, próximo de um ska fraudulento; para o cha-cha-cha irresistível de “Jack Field”, repleto de apontamentos loucos dos sopros; e para “La Rapina della Scala”, em formato de tragicomédia do absurdo, com uma atmosfera gangsteriana.

Pouco tempo depois, Simona criaria o Jazz Cocktail Festival em Poggibonsi, uma pequena cidade da província de Siena, integraria a orquestra feminina Donne Sotto le Stelle del Jazz e gravaria o LP “Coriandoli”, com o guitarrista Riccardo Bianchi.

Em 1989 seria lançado o resultado da parceria com Mal Waldrom – “Flakes” é nem mais nem menos do que um recital de canto e piano com convidados de luxo. Trata-se de uma colecção de música de câmara pura, que em cada peça recebe a adição de um novo instrumento ao duo base.

Na faixa inaugural, dedicada ao pintor expressionista Mark Rothko, o visitante é o inconfundível saxofone soprano de Steve Lacy, num ostinato em desenvolvimento modal que se apresenta como uma espécie de tarantela fragmentada. A voz de Simona revela os atributos habituais – sensualidade, mistério e autoridade, que se aplicam obviamente a todo o álbum.

Carga dramática

O flautista italiano Giulio Visibelli surge na valsinha “Litle One”, que ocasionalmente se aproxima de algumas idiossincrasias melódicas brasileiras, mas o pendor 6/8 da peça acaba por impedir o descambar para a prenunciada bossa nova. A mesma flauta brilha em todo o seu esplendor na balada “Bo il Cinese”, com um timbre quente e delicado, e ainda em “Rose Selavy”, num delicioso diálogo com o trompete de Enrico Rava e num fantástico uníssono com a voz de Tiziana.

Steve Lacy volta à cena para atacar uma muito descontraída “bluesy song”, “Flowers for Albert”, deixando transparecer toda a cumplicidade entre o seu soprano e o piano de Waldrom, derivada de anos de parceria. E é precisamente com blues que tal parceria continua a deleitar-nos, na ultra-sensível balada “Left Alone”, onde a italiana canta na forma mais imparcial em que jamais a ouvíramos.

O fliscórnio de Wheeler não podia deixar de estar presente e brinda-nos com um solo absolutamente desconcertante de perfeição sobre o “swing” lento de “Fling”, em que Waldrom avança também ele com um belo solo. “Shadow Figures” é o momento alto de abstracção do álbum, surgindo a voz e o piano num registo essencialmente experimental, com uma forte carga dramática.

Em 1993, Tiziana Simona colabora novamente com Kenny Wheeler na apresentação da sua famosa suite poética-vocal “Mirrors”, na qual se integrava igualmente o pianista John Taylor. Depois disso, a enigmática cantora italiana, que regista no seu currículo uma lista incontável de colaborações com músicos de todo o mundo, deixou de aparecer e eu só voltaria a ter a possibilidade de a ouvir mais recentemente, em 2010, numa simples, mas encantadora, balada com guitarra, “Angelina”, que infelizmente nunca veio a ser editada.

  • Flakes

    Flakes (ITM Records)

    Tiziana Simona & Mal Waldron ‎

    Tiziana Simona (voz); Mal Waldron (piano) + Giulio Visibelli (flautas em dó e alto); Steve Lacy (saxofone soprano); Enrico Rava (trompete, fliscórnio); Kenny Wheeler (trompete, fliscórnio)

  • Gigolo

    Gigolo (ITM Records)

    Tiziana Simona & Kenny Wheeler

    Tiziana Simona (voz); Kenny Wheeler (trompete, fliscórnio); Giuseppina Runza (violoncelo); Jean-Jacques Avenel (contrabaixo); Nene Lima Filho (bateria)

  • This, That and the Other

    This, That and the Other (ITM Records)

    Toshinori Kondo & Tristan Honsinger

    Tiziana Simona (voz); Toshinori Kondo (trompete, electrónica, voz); Tristan Honsinger (violoncelo, voz); Sean Bergin (saxofones, melódica, voz); Michael Moore (clarinete); Jean-Jacques Avenel (contrabaixo); Steve Noble (bateria, voz)