Chants du Milieu

Kristoff K. Roll & Daunik Lazro: “Chants du Milieu” (Creative Sources)

Creative Sources

Rui Eduardo Paes

Quem tem mais uns aninhos de consumos jazz estará lembrado, com certeza, de que por alturas do PREC o saxofonista Daunik Lazro era uma presença habitual no nosso país, em colaborações com os Plexus de Carlos “Zíngaro” que, regra geral, terminavam com interpretações jazzificadas da Internacional.

Depois disso, só o vimos e ouvimos a tocar ao vivo em Portugal por três vezes: numa digressão com o violinista português e com o percussionista franco-vietnamita Lê Quan Ninh, logo no início da década de 1990, num concerto do Jazz em Agosto de 1993 com Joe McPhee e o Quintet Distico, e mais tarde numa quase desapercebida apresentação no Blues Café, de Lisboa.

Se parece esquecida a contribuição seminal do músico para os primeiros desenvolvimentos do jazz criativo nacional, no seu país, a França, Daunik tem estatuto de lenda – foi um dos introdutores da “estética do grito” no Hexágono, prosseguindo as abordagens de um Albert Ayler. Para ele, tratou-se de uma radical mudança de vida: até então, o seu nome estivera envolvido com a vaga dos “novos filósofos” saídos da Sorbonne.

Foi devido a esta ascendência na cena musical (e também intelectual e política) gaulesa que o duo electrónico de improvisação Kristoff K. Roll o chamou para dois projectos, o homenageante “Portrait de Daunik Lazro” e depois “Le Petit Bruit d’à Cotê du Coeur du Monde”, um inusitado mapa sonoro de África em que o sax barítono do convidado surgia num fantástico despique com um comboio a vapor.

“Chants du Milieu” é o novo episódio dessa colaboração, mostrando-nos um Daunik Lazro cada vez mais afastado dos modos e das formas do free jazz, mas tão brilhante como quase sempre.

Curiosamente, o disco tem uma inesperada dimensão acústica – os trabalhos de processamento de Carole Rieussec e Jean-Christophe Camps são discretos e há uma clara preferência por um uso cru das chamadas “gravações de campo” (“field recordings”) – regra geral, recolhas de falas realizadas em vários pontos do mundo, sendo reconhecíveis as captadas em Chiapas, território de ocupação zapatista no México, e no continente africano.

Essa moldura humana dá um forte carácter cinemático à música. Pomo-nos a imaginar cenas e situações, acabando por ficar embalados numa narrativa que, não sendo determinante nem linear, é imersiva e nos conduz ao longo do seu fluxo. De repente, tudo termina como se o tempo não tivesse passado. Nada a fazer senão colocar o CD de novo a rodar…

  • Chants du Milieu

    Chants du Milieu (Creative Sources)

    Kristoff K. Roll & Daunik Lazro

    Carole Rieussec, Jean-Christophe Camps (electrónica, field recordings); Daunik Lazro (saxofone barítono)