Absolute Zero

Jon Irabagon / Hernâni Faustino / Gabriel Ferrandini: “Absolute Zero” (NotTwo Records)

NotTwo Records

Rui Eduardo Paes

Não é novidade nem será a última vez – até porque disso resultam discos como o presente. Nas suas passagens por Portugal, algumas delas repetidas ao longo dos anos, grandes músicos de outros países vão tendo a oportunidade de tocar com portugueses e de gravar esses encontros, seja no palco ou em estúdio.

É este último o caso: membro do grupo Mostly Other People Do the Killing, no qual contracena com um génio do trompete, Peter Evans (o que quer dizer que, sendo menos conhecido, está muito claramente à sua altura), o saxofonista Jon Irabagon formou projecto com os dois propulsores do Red Trio, Hernâni Faustino e Gabriel Ferrandini. O (esperemos que só o primeiro) desfecho está aqui: “Absolute Zero”.

Um título que nos leva ao engano, pois não se trata propriamente de música minimalista. Momentos há, sem dúvida, em que a regra do jogo é a contenção, mas quando a coisa aquece, a introspecção evoluindo para bolhas de intensidade prestes a rebentar – prestes, porque tal nunca chega a acontecer, tudo voltando à forma inicial –, ficamos com uma “fire music” integralmente improvisada.

Estando aqui registado o melhor Irabagon solista dos últimos tempos, o essencial deste disco está noutro factor sem o qual, simplesmente, a improvisação não funciona: coesão de grupo. Os três músicos estão tão colados que o que verdadeiramente importa seguir são as suas interacções. Para quem ainda pensa que o jazz e a música improvisada se definem pelo virtuosismo individualista, prova-se nestas faixas que a sua principal virtude está no estabelecimento de um enfoque colectivo e colectivista da criação musical.

As distensões e os relaxamentos de “Absolute Zero” não se fazem, necessariamente, por tocar menos, mais suavemente ou com uma diminuição do volume sonoro. Basta que Irabagon retire o bocal do saxofone para se concentrar no sopro, que Faustino pegue no arco para um trabalho harmónico e que Ferrandini substitua ritmos quebrados por texturas alheadas do tempo para que a descompressão se proporcione.

É a abstracção que regula a energia, não o recurso a abordagens líricas. E no entanto… eis que o lirismo se manifesta, enquanto “carácter de subjectividade e sensualidade da expressão”, tal como se lê nos dicionários.

  • Absolute Zero

    Absolute Zero (NotTwo Records)

    Jon Irabagon / Hernâni Faustino / Gabriel Ferrandini

    Jon Irabagon (saxofones alto, tenor e soprano); Hernâni Faustino (contrabaixo); Gabriel Ferrandini (bateria, percussão)