De uma vez são três

Shhpuma

De uma vez são três

Shhpuma

texto Pedro Sousa

A editora-filha da Clean Feed tem três novos discos a circular, com propostas muito diversificadas das áreas mais experimentais da improvisação que se pratica em Portugal ou com portugueses.

De uma assentada, são três os títulos saídos com o selo da nova Shhpuma, editora-filha da Clean Feed. Os propósitos que pareciam mover as escolhas dos dois primeiros lançamentos, o ano passado (Pão e Filipe Felizardo a solo), confirmam-se: este é um catálogo dedicado a uma música de teor experimental, sem classificação.

Ou seja, a sua atenção abarca tudo o que fica para lá do jazz (mesmo que, num caso ou noutro, passe por esse idioma), dado ser esse o objecto da actividade da Clean Feed. Se bem que a prática da improvisação seja um mínimo denominador comum e que haja uma incidência particular: os artistas da casa são portugueses. Até ao momento, só um dos músicos é de outro país, Philipp Ernsting, membro de um grupo nascido em Roterdão, Albatre.

Cada disco tem um ponto de focagem próprio, o que faz da Shhpuma um mostruário do que vai acontecendo nas áreas menos “visíveis” da nossa música criativa. 

Parque: “The Earworm Versions” 

Parque é um projecto de natureza peculiar. O álbum “The Earworm Versions” é o registo sonoro de um evento maior, uma performance-instalação sonora de Ricardo Jacinto apresentada em 2008 na Culturgest, com a colaboração de Nuno Torres (habitual parceiro de Jacinto no duoCacto), Nuno Morão, João Pinheiro, Dino Récio e André Sier.

Colaboraram ainda Pedro Magalhães e Hugo Brito na manipulação de um pêndulo, elemento fulcral à volta do qual gira, ou neste caso, oscila a última faixa. Hugo Brito escreve também os textos narrados durante o tema “OS”.

Quando ouvimos este disco é impossível desligarmo-nos do facto de que esta obra envolve uma forte componente visual e implica a nossa presença enquanto espectador, como se carecesse da nossa análise subjectiva. Um interessante conjunto de coordenadas, portanto, a acrescentar ao facto de se tratar de uma narrativa sonora, como tal a descodificar.

De facto, é uma música com espaço, mas não apenas espaço na medida em que os músicos utilizam longos intervalos de silêncio e intervenções orquestradas. Acima de tudo, é um conjunto de sons altamente tridimensional, em que as esculturas sonoras de Jacinto são manipuladas para criar o eixo definidor de uma composição.

A escala é tradicionalmente considerada um dos factores mais determinantes de uma escultura, e este caso não é excepção. As peças têm uma excelente noção disso: contraem e expandem o nosso campo reverberante com tal clareza que, por vezes, se tornam inquietantes. Em especial no caso da última faixa do CD.

É pena, no entanto, que os momentos narrados cortem o transe contemplativo, através da introdução de ideias mais definidas e rígidas, apresentando-se como um choque (mas não um impedimento) para a criatividade abstracta que estamos a degustar.

"Setup" da performance-instalação Parque

Joana Sá / Luís José Martins: “Almost a Song”

“Almost a Song” é uma colaboração entre a pianista Joana Sá e o guitarrista Luís José Martins. Embora ambos já tivessem trabalhado juntos com Eduardo Raon no Powertrio, este duo não é “apenas” essa formação sem o harpista.

As coordenadas são outras. O álbum apresenta composições dos dois músicos cuidadosamente trabalhadas e enlaçadas, numa forma menos livre e solta que a do trio e com menos recurso a técnicas extensivas, ou pelo menos com uma abordagem estilística e uma atitude que o distingue.

O resultado é mais contemplativo e de rendilhado complexo, sendo ambos os músicos incrivelmente eficientes em desenvolver e segurar as ideias. Cada mudança sente-se como uma porta que se abre, permitindo a passagem de inesperadas brisas. Há mesmo algo de efabulatório, de fantástico, como um conto de fadas sem palavras.

Albatre: “A Descent Into the Maelström” 

Albatre provém da fornalha efervescente da cena improv da Holanda (Roterdão), de onde têm saído outros jovens grupos particularmente dinâmicos como EKE (com Yedo Gibson, Oscar Jan Hoogland e Gerri Jäger). Funciona como uma espécie de “power trio”, com os “loops” e o sax alto de Hugo Costa no lugar da guitarra eléctrica.

Gonçalo Almeida troca, neste contexto, o seu habitual contrabaixo por um baixo eléctrico e Philipp Ernsting desdobra-se entre a bateria e a electrónica. A fazer jus ao portentoso conto de Edgar Allan Poe com o mesmo nome deste disco, “A Descent Into the Maelström”, a música espirala-se em contínuas camadas, ganhando as composições títulos tão pouco auspiciosos como “Apothic Zone” ou “Vampyroteuthis infernalis”.

À primeira audição parece-nos um clone de Zu, mas com algo de Painkiller. O certo é que se afasta da complexidade técnica de Zu, que por vezes constrange a música deste grupo italiano, assim obtendo um “drive” único. E se não chega à insanidade de Painkiller, também, felizmente, não lhe repete o “azeite”.

Apesar das boas ideias introduzidas, estas arrastem-se sem desenvolvimento nem conclusão. O conceito estético adequa-se perfeitamente ao conceito de Poe, fosse essa a intenção ou não, mas a fórmula necessita ainda de algum refinamento. 

  • The Earworm Versions

    The Earworm Versions (Shhpuma)

    Parque

    Ricardo Jacinto (violoncelo, percussão); Nuno Torres (saxofone alto); Nuno Morão (percussão, melódica); João Pinheiro (percussão, vibrafone); Dino Récio (percussão); André Sier (electrónica)

  • Almost a Song

    Almost a Song (Shhpuma)

    Joana Sá / Luís José Martins

    Joana Sá (piano, piano de brinquedo, celesta, percussão, electrónica); Luís José Martins (guitarra clássica, percussão, electrónica)

  • A Descent Into the Maelström

    A Descent Into the Maelström (Shhpuma)

    Albatre

    Hugo Costa (saxofone alto, loops); Gonçalo Almeida (baixo eléctrico); Philipp Ernsting (bateria, electrónica)