Love Me Tender

Massacre: “Love Me Tender” (Tzadik)

Tzadik

Gonçalo Falcão

“Killing Time”, o primeiro disco (1982) dos Massacre, é um dos mais extraordinários discos de jazz e rock dos anos 1980, antecipando e suplantando muito do que viríamos a ouvir dez anos mais tarde na “downtown” nova-iorquina. Foi um filho único e ficou como o documento do encontro de três músicos extraordinários, que iriam separar-se para desenvolver a sua voz própria. É uma obra-prima.

Passados 16 anos, em 1998, a Tzadik de John Zorn acorda o “power trio” e edita “Funny Valentine” (substituindo Fred Maher por Charles Hayward na bateria), também excelente mas sem o revolucionarismo do primogénito,  seguindo-se mais duas edições em 2001 e 2007 de gravações ao vivo.

Os Massacre vão absorvendo os caminhos musicais dos seus membros e cada reencontro adiciona as experiências mais recentes de Fred Frith ou de Bill Laswell, sem nunca perder o sentido original: um rock demolidor, cheio de improvisação, que abre buracos nos cérebro e obriga o corpo a reagir.

O agravamento recente da doença de Laswell tê-los-á levado a querer lançar mais este documento, gravado ao vivo em dois concertos de 1999 (Moers e Zurique) e de 2008 (Ferrara). “Meltdown”, o disco de 2001, reproduzia o concerto no Meltdown Festival de Robert Wyatt, desse mesmo ano, e “Lonely Heart” as gravações ao vivo na Europa em 2003.

O “puzzle” fica agora mais completo com o som de 1999, onde ainda se ouve muita composição e solos de guitarra e baixo demasiado bons. Nas primeiras faixas ainda sentimos aromas do “punk meets Funkadelic meets Henry Cow meets Derek Bailey” que vinha do início e que o disco do ano anterior tinha aperfeiçoado.

O baixo subsónico de Laswell desdobra-se em sons planetários e, com a guitarra de Frith, cria duas linhas paralelas criativas. A bateria de Hayward mantém o passo muito acelerado. O disco soa a um rock que não existe e a um jazz que não existe.

O trio é um formato que construiu vários dos pilares do rock e do jazz. Os Massacre, porque não tiveram a divulgação que mereciam, não podem ser colocados ao lado dos trios de Elvis Presley / Scotty Moore / Bill Black, de Jimi Hendrix / Noel Redding / Mitch Mitchell ou de Bill Evans / Scott LaFaro / Paul Motian. Mas é um dos grupos mais extraordinários de rock, jazz e improvisação e estes discos provam a originalidade do grupo e a capacidade de se reinventar, depois de um começo descomunal.

  • Love Me Tender

    Love Me Tender (Tzadik)

    Massacre

    Fred Frith (guitarra eléctrica);  Bill Laswell (baixo eléctrico); Charles Hayward (bateria, melódica, voz)