Tap: The Book of Angels Vol. 20

Pat Metheny: “Tap: The Book of Angels Vol. 20” (Tzadik / Nonesuch)

Tzadik / Nonesuch

Gonçalo Falcão

Desde que começou a viver profundamente os seus antecedentes musicais judaicos, John Zorn vem saturando o mercado com edições da série “Book of Angels”: um relato musical da sua leitura da tradição israelita. Incontáveis Masada(s) (o primeiro projecto que deu som a este caminho) multiplicam prismaticamente as formas de ouvir estes modos musicais e de lhes dar  vida nova através do jazz.

Este novo disco faz parte desse projecto colossal, uma peregrinação de 500 canções hebraicas que começou em 1994 e que o compositor ordenou em dois “livros”. O primeiro, com 200 canções, foi entregue pelo grupo Masada: originalmente um quarteto com John Zorn no saxofone alto, Dave Douglas no trompete, Greg Cohen no contrabaixo e Joey Baron na bateria, teve depois outras e variadas reencarnações.

O segundo “livro”, de que este disco é uma parte, tem as restantes 300 canções (escritas em três meses). O “Book of Angels” número 20 (!!!!) é parte deste segundo tomo e “Tap” constitui uma surpresa de audição obrigatória, pois a reunião de Zorn com Pat Metheny (que antes nunca se tinham encontrado pessoalmente) é coisa inesperada, só a ideia prometendo grandes possibilidades.

Metheny é um guitarrista descomunal, mas o seu trabalho mais recente tem-se pautado por um grande desinteresse, imerso num universo sonoro quase “kitsch”, em que pouco mais resta do que a sua técnica maravilhosa. A sua fluidez única, o seu fraseado e a criatividade solística de que dispõe têm, infelizmente, sido abalroados pelo excesso de açúcar a que recorre e pela alegria frívola das composições.

Assim, este impulso de Zorn significava a oportunidade para um desvio do guitarrista, depois dos excelentes “descarrilamentos” que foram o solo “Zero Tolerance for Silence”, de 1992, e “The Sign of Four”, de 1994, ao lado de Derek Bailey. Uma navegação de Metheny pelo mundo zorniano antecipava desenlaces surpreendentes.

Ora, o que ouvimos não é tão imprevisto quanto se poderia julgar, mas também não provoca uma desilusão. “Tap” é um catálogo desconexo em que cada peça é completamente diferente das demais, o que reflecte a forma como foram feitas as gravações, em intervalos, uma a uma, sem um fio condutor. E no entanto, ouvido várias vezes o disco, a opção resulta positiva: já é difícil suportar o modalismo heterofónico deste tipo de abordagens, o espartilho dos cinco modos melódicos, os ornamentos... Por isso, o facto de cada música ser uma experiência sonora diferente, com um ambiente distinto, ajuda a suportar a provação.

Apesar de um arranque desastroso, com “Masthena” (guitarra a soar a sitar…), os últimos segundos desta faixa dão esperança. “Albim”, com guitarra acústica, já parece muito melhor. Passados os momentos iniciais de exposição, “Tharsis” reaviva o som da guitarra sintetizada de “Offramp” e soa bem!

“Phanuel” dá-nos a guitarra de caixa de Metheny em estado quase puro e vale pelo menos uma das estrelas com que aqui classifico o álbum. É o melhor tema. A progressão em modo “pot-pourri” chega até “Hurmiz”, que poderia bem ter sido o início, por ser a peça mais aberta e a mais interessante de ouvir. É como se o CD viesse num crescente do que poderia ser e terminasse onde deveria começar.

Resta-nos a esperança de que Zorn se livre deste martírio a que voluntariamente se submeteu e que use a sua gigantesca criatividade musical (provada em projectos como Naked City, Spy vs Spy, Spillane, News For Lulu, Cobra, etc.) para voltar a dar-nos música livre de imperativos etno-religiosos.

  • Tap: The Book of Angels Vol. 20

    Tap: The Book of Angels Vol. 20 (Tzadik / Nonesuch)

    Pat Metheny

    Pat Metheny (guitarras, baixo, piano, teclados, marimba, carrilhão, bandoneon, percussão, electrónica, fliscórnio); Antonio Sanchez (bateria)