Assim se fazem as cousas

Satoko Fujii

Assim se fazem as cousas

NotTwo Records

texto Rui Eduardo Paes

Não há fins sem princípios. Dois discos da pianista saídos na mesma altura assinalam a morte do quarteto Ma-Do e o arranque do seu New Trio. De forma brilhante em ambos os casos, o segundo prometendo grandes agitações no domínio do trio de piano jazz.

À frente de uma orquestra, tocando a solo ou liderando pequenos grupos – como no caso dos novíssimos “Time Stand Still” e “Spring Storm”, com, respectivamente, o quarteto Ma-Do e o seu New Trio –, a pianista e compositora japonesa Satoko Fujii vem considerando que está, simplesmente, diante de «derivações da mesma ideia».

O que mais cativa os seus ouvintes é, no entanto, outra coisa: o facto de, em cada investimento que faz, manter um equilibrado e superior nível de qualidade e pertinência, entregando-se na totalidade a cada projecto específico. O que até nem surpreende, sabendo que logo no seu disco de estreia atreveu-se a um duo com o seu professor no New England Conservatory, nem mais nem menos do que Paul Bley, um dos maiorais do piano na história do jazz.

Se o ataque percussivo que por vezes aplica pode lembrar Cecil Taylor, apesar de não conhecer suficientemente a sua música para se sentir por ele influenciada, os seus modelos são a música erudita da sua escolaridade, o jazz para o qual se virou quando percebeu que o academismo clássico lhe vedava a prática da improvisação e, igualmente, o rock, talvez devido a factores geracionais.

Além de Bley, outros nomes que contribuíram para construir o seu ADN pianístico são Bill Evans e Herbie Hancock. Mas porque os seus conceitos de escrita e enquanto “band leader” ultrapassam em muito o âmbito do piano, tem o Art Ensemble of Chicago como a referência maior das suas formulações de grupo e Carla Bley, Charles Ives e Claude Debussy abriram-lhe as perspectivas composicionais. Outro dos seus mestres foi George Russell, de quem assimilou os métodos do Lydian Chromatic Concept of Tonal Organization. 

Presente em tudo 

Ainda que utilize estruturas abertas e as suas improvisações possam ser totalmente abstractas, não dispensa a melodia nem a ordenação segundo métricas bem definidas. E porque nasceu e cresceu no Japão, também absorveu a música tradicional do seu país, e esta está inevitavelmente presente em tudo o que cria. Isso é ainda mais evidente quando se faz rodear de músicos da mesma origem geográfica, como é o caso do Ma-Do, formação em que encontramos um dos grandes trompetistas do nosso tempo, Natsuki Tamura, seu marido, e a secção rítmica constituída por Norikatsu Koreyasu – entretanto falecido – e Akira Horikoshi. Os mesmos integrantes do projecto Gato Libre, com a substancial distinção de que é Satoko, e não Natsuki, quem está ao leme…

Antes de frequentar o New England Conservatory, Satoko Fujii passou pelo Berklee College of Music com o firme propósito de interiorizar a tradição e, muito particularmente, as convenções do bebop. É esta a linguagem base da sua música, mas como está patente no disco do New Trio, embora este lide com as coordenadas do trio de piano jazz, predomina a vontade de encontrar outras soluções.

Estas misturam-se e confundem-se, mas tal acontece segundo os termos de uma identidade musical muito própria e de evidente solidez. Ou seja, o Ma-Do é muito diferente do New Trio e estes dois álbuns pouco têm a ver com o que Fujii faz em duo com Carla Kihlstedt, Myra Melford e Tatsuya Yoshida (sim, o baterista dos Ruins), em trio com Mark Dresser e Jim Black ou com Tamura e John Hollenbeck, em quarteto com o mesmo Tamura, Curtis Hasselbring e Andrea Parkins ou na orquestra que dirige em Nova Iorque com Oscar Noriega, Tony Malaby, Ellery Eskelin, Andy Laster, Herb Robertson, Steven Bernstein e Joe Fiedler, entre outros. E porém, ouvimos e logo detectamos a sua marca pessoal.

“Puzzle” em construção

 

Há, inclusive, algo que nos indica tratar-se, a sua obra e a sua vida, de um imenso “puzzle” em construção. Ela própria já confessou que retira ideias aos seus solos para as “big bands” e que o que toca com as orquestras é encapsulado para uso em trio e quarteto. Quando afirma que cada investimento é uma “derivação” está a ser literal, e é por isso que anda sempre em digressão, entre a América do Norte, a Europa e a Ásia (“Spring Storm”, note-se, foi lançado por uma editora de Hong-Kong), e que têm saído tantos discos sob o seu nome, a que estes dois agora se somam.

Satoko Fujii é bem o exemplo desse tipo de músico que representa o tempo em que vivemos: na sua actividade, não existem distinções entre “mainstream” e vanguarda. Utiliza todos os recursos que lhe são úteis. É como se, numa conversa, surgisse um outro tema e o diálogo toma outros rumos quando menos se espera. As regras são aceites para depois, no calor da discussão, desaparecem, podendo ser retomadas ou não mais adiante. Não há uma direccionalidade fixa, seja nas improvisações como na pauta, e não há tabus.

“Time Stands Still” é o glorioso adeus de um quarteto (na verdade dois, contando com Gato Libre) que, sem Koreyasu, deixa de fazer sentido, e o certo é que o contrabaixista esteve particularmente brilhante nas gravações. “Spring Storm”, por sua vez, é o primeiro brilhante tomo de um trio que vem agitar as águas e já tem sido reconhecido como do melhor que Fujii até à data foi capaz. Entre mortes e nascimentos «assim se fazem as cousas», como escreveu Gil Vicente…

  • Time Stands Still

    Time Stands Still (NotTwo Records)

    Satoko Fujii Ma-Do

    Satoko Fujii (piano); Natsuki Tamura (trompete); Norikatsu Koreyasu (contrabaixo); Akira Horikoshi (bateria)

  • Spring Storm

    Spring Storm (Libra Records)

    Satoko Fujii New Trio

    Satoko Fujii (piano); Todd Nicholson (contrabaixo); Takashi Itami (bateria, percussão)