Jazz em papel

Livros

Jazz em papel

Biblioteca Instrução e Recreio / Ediresistência (reedição)

texto António Branco

Num país onde a publicação de livros sobre jazz é residual, não deixa de espantar que, num curto espaço de tempo, tenham sido três os títulos que viram a luz do dia. A jazz.pt já os leu.

Desta vez, o Ponto de Escuta transforma-se num Ponto de Leitura. De uma assentada, três novos livros escritos por portugueses em que se trata o jazz vêem a luz do dia. Não é habitual. Aqui se adianta o que neles vem… 

Jazz na terra da abóbora 

Quando, em 1985, Adelino Mota, então estudante em Coimbra, colocou ao contrabaixista David Gausden a possibilidade de tocar no verão seguinte na pequena povoação de Valado dos Frades – de feição vincadamente rural, situada entre a Nazaré e Alcobaça – estaria longe de antever que, quase 30 anos volvidos, o Festival de Jazz de Valado dos Frades fosse considerado, por músicos, críticos e público, como um dos mais carismáticos festivais nacionais de jazz.

Com a sua atmosfera única, sob a forma de um clube de jazz que abre anualmente, o Festival do Valado é hoje um ponto de peregrinação essencial no roteiro dos muitos festivais que têm lugar por terras lusas. É essa história, feita de estórias e memórias, que o jornalista Mário Galego procura desfiar em “Uma Estória de Jazz em Valado dos Frades”, edição conjunta, agora revista e aumentada, da Biblioteca Instrução e Recreio (BIR) – entidade fundada em 1933 que organiza o festival – e da editora Ediresistência, com apoio do Jazz ao Centro Clube.

Depois do concerto inaugural – do baterista norte-americano Luigi Waites, a 8 de agosto de 1986 – e dos da cantora Ellen Demos, a 21 de agosto do ano seguinte, e do grupo liderado pelo guitarrista Miguel Fevereiro (um valadense), no verão de 1988, houve que esperar quatro anos até que tivesse lugar a primeira edição do festival (1992) e depois outros sete para que chegasse a segunda (1999).

O autor recorre a depoimentos de alguns dos músicos com uma ligação mais próxima ao festival, como são os casos de André Sousa Machado (o músico que mais vezes lá tocou), Bruno Pedroso, Sérgio Carolino, Nanã Sousa Dias, Carlos Barretto, Claus Nymark, João e Bernardo Moreira, Jacinta e Alexandre Frazão. Galego não esquece o impacto regional gerado, de que resulta, por exemplo, a criação da Big Band do Município da Nazaré (constituída sobretudo por músicos desta localidade e do Valado), as opiniões dos principais músicos estrangeiros que nele tocaram e também todo o ambiente muito especial que se vive em torno deste evento.

Ao texto juntam-se fotografias da coleção de Jorge Ribeiro (outro dos principais responsáveis pelo festival) e Adelino Mota, para além da reprodução de bilhetes e programas, pertencentes ao acervo da BIR. Por cima do palco, sempre o mesmo lema: “Luz Sempre Mais Luz”. Um documento interessante para se perceber melhor o que faz do Festival do Valado um evento de características únicas.  

Improvisar por aí: as “jam sessions” 

“Perpetuating the Music – Entrevistas e Reflexões sobre Jazz Sessions”, o novo livro da autoria do guitarrista, compositor e musicólogo Ricardo Pinheiro, reúne um conjunto de 10 entrevistas (a nove músicos e a um empresário e proprietário de clubes) em torno da importância das “jam sessions” (e também do conceito de “sitting in”) enquanto prática performativa essencial para a evolução dos músicos de jazz, designadamente no panorama do jazz nova-iorquino. Entre os entrevistados (todos músicos consagrados, por opção do autor) estão nomes grados do jazz atual, como Jason Moran, Chris Potter, Bill Stewart, Ben Monder, Nicholas Payton e Scott Colley.

O autor aprofunda a problemática, procurando indagar da relevância das “jam sessions” não só como forma de aprendizagem, mas também como instrumento de construção de redes de contactos profissionais e ao nível do estabelecimento de hierarquias de competência.

Com um extenso e assinalável percurso académico, Ricardo Pinheiro é licenciado em Música pelo Berklee College of Music (Boston) e em Ciências da Psicologia pela Universidade de Lisboa. As entrevistas compiladas neste livro, realizadas entre 2003 e 2005 em Manhattan, Nova Iorque, foram realizadas no âmbito do trabalho de campo para o seu Doutoramento em Ciências Musicais na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (UNL), concluído em 2008 com uma tese intitulada “Jammin´ After Hours: A Jam Session em Nova Iorque” (também já publicada em livro, pela Editora Universidade Lusíada, com o título “Jazz Fora de Horas – Jam Sessions em Nova Iorque”, 2012).

Com estas entrevistas o investigador pretende evidenciar os pontos de vista dos músicos sobre as “jam sessions”, procurando assim dar um contributo para uma melhor compreensão desta prática «a partir de uma visão “de dentro” da cena do jazz», como explica. As conversas são complementadas com observações de “jam sessions” em cinco importantes clubes nova-iorquinos: Lenox Lounge e St. Nicks Pub (Harlem), Cleopatra´s Needle e Smoke (Upper West Side) e Small´s (Greenwich Village).

Na condução das entrevistas, Pinheiro consegue colocar-se no duplo papel de músico – de forma a que os entrevistados as encarem como uma «conversa entre colegas» – e de jornalista, procurando assim posicionar-se segundo vários ângulos de abordagem. O autor decidiu manter as transcrições em Inglês (numa opção, a meu ver, acertada) para captar melhor a força e a naturalidade das expressões, muitas delas intraduzíveis para a língua de Vieira com o necessário rigor.

Atualmente, Ricardo Pinheiro é também investigador no INET – Instituto de Etnomusicologia – Centro de Estudos em Música e Dança da UNL. É ainda coordenador da licenciatura em Jazz e Música Moderna da Universidade Lusíada de Lisboa (ULL) e do mestrado em Ensino da Música da Academia Nacional Superior da Orquestra Metropolitana e ULL. 

Música e Anarquia: mitos e revelações

Rui Eduardo Paes por Hervé Hette 

«Não acredito em nada, mas tenho muitas suspeitas.» É com esta epígrafe afirmativamente cética que o jornalista, ensaísta, crítico, dinamizador cultural e agitador de consciências Rui Eduardo Paes (REP) dá o mote para a sua mais recente colectânea de textos, intitulada “‘A’ Maiúsculo com Círculo à Volta” (Chili com Carne).

Depois do regresso aos livros, no ano passado, com o excelente “Bestiário Ilustríssimo”, REP compilou, reviu e aumentou um conjunto de prosas que foi publicando, sem periodicidade fixa ou sequência lógica, no blogue Bitaites. Estes textos foram construídos a partir de notas de leitura que o autor foi fazendo enquanto aprofundava o estudo das novas correntes do pensamento anarca, como o pós-anarquismo – com o seu cariz anti-ideológico –, o anarquismo negro ou o anarquismo cristão – e da sua relação com a música.

O autor não nega que foi a “crise” que serviu de alavanca para a produção destas reflexões. Por um lado, confessa, dispôs de mais tempo para investigar e escrever, numa altura em que escasseava o trabalho (fim da publicação em papel da revista jazz.pt, entretanto reativada “online”) e diminuíam as solicitações das instituições culturais com as quais colabora, a braços com significativos cortes orçamentais e severos reflexos na respetiva programação. Por outro, a sua escrita foi, sem dúvida, contaminada pela desilusão e pela raiva que foi acumulando contra as políticas de austeridade que o agrilhoam a si e à esmagadora maioria dos portugueses.

REP escava as interligações entre a Anarquia – e seu suporte filosófico-político – e a Música, defendendo que estas são mais complexas do que aquelas que uma abordagem superficial possa fazer crer. Estas interligações vão muito além do punk (que em muitas situações de libertário nada tem) e da “livre-improvisação”, outra área musical em que são comuns as analogias com o ideário anarca – mesmo quando os músicos em causa perfilham perspetivas de origem marxista.

E trata não só de estabelecer algumas conexões em outros domínios musicais como também de demolir alguns preconceitos, dando o exemplo de Frank Zappa, que ao mesmo tempo que defendia posições de esquerda era um “ditador” na condução dos seus grupos musicais. Para além do líder dos Mothers of Invention, REP aborda outros casos, como os do compositor John Cage e a negação de Beethoven (com referência ao médico e ocultista Johann Malfatti de Montereggio e à letal medicação que prescreveu ao compositor nascido em Bona), do improvisador Lê Quan Ninh (e seus pensamentos niilistas) e de Fela Kuti e o que apelidou de “paradoxo africano”.

Dando sequência a uma consistente abordagem político-musicológica, por vezes fraturante e polémica, REP continua a revelar neste novo conjunto de reflexões a lucidez intelectual, a densidade de análise e o rigor enciclopédico que sempre caracterizaram a sua escrita. “A’ Maiúsculo com Círculo à Volta” é um objeto literário-gráfico-musical absolutamente único e indispensável (contém ilustrações de Joana Pires, Marcos Farrajota, André Coelho, Jucifer, Bráulio Amado, José Feitor, David Campos, Daniel Lopes, André Lemos, João Chambel e Ana Menezes), tal como a sua anterior produção literária, que urge reeditar.

  • Uma Estória de Jazz em Valado dos Frades

    Uma Estória de Jazz em Valado dos Frades (Biblioteca Instrução e Recreio / Ediresistência (reedição))

    Mário Galego

    Mário Galego (texto)

  • Perpetuating the Music – Entrevistas e Reflexões sobre Jazz Sessions

    Perpetuating the Music – Entrevistas e Reflexões sobre Jazz Sessions (Papiro Editora)

    Ricardo Pinheiro

    Ricardo Pinheiro (texto)

  • ‘A’ Maiúsculo com Círculo à Volta

    ‘A’ Maiúsculo com Círculo à Volta (Chili com Carne - Colecção THISCOvery CCChannel)

    Rui Eduardo Paes

    Rui Eduardo Paes (texto); Joana Pires, Marcos Farrajota, André Coelho, Jucifer, Bráulio Amado, José Feitor, David Campos, Daniel Lopes, André Lemos, João Chambel, Ana Menezes (ilustrações)