Synesthesia

The Kandinsky Effect: “Synesthesia” (Cuneiform)

Cuneiform

António Branco

Depois de assistir a uma récita do “Lohengrin”, no Teatro Real de Moscovo, Wassily Kandinsky não calou a perturbação que a obra do mestre de Leipizig lhe havia causado: «Imaginei todas as minhas cores; elas estavam mesmo à frente dos meus olhos. Linhas selvagens, quase frenéticas, desenhavam-se à minha frente.» Esta experiência sinestésica comoveu-o ao ponto de lhe abrir as portas não só para o poder da música como também para os poderes da pintura ainda por descobrir.

Começava então um processo de descoberta das relações entre as cores e os sons, uma correspondência secreta que acabaria por se tornar na principal chave da sua própria convicção artística. Esta aglutinação de sensações enquadra o trabalho do The Kandinsky Effect, trio formado na cosmopolita cena parisiense em 2007 e que adotou o nome do célebre pintor abstrato russo. Constituído por dois músicos franceses (o baixista Gaël Petrina e o baterista Caleb Dolister) e um norte-americano (o saxofonista e cérebro do grupo Warren Walker), o grupo gravou na Islândia e batizou peças com o nome de um cineasta dinamarquês (“Lars Von Trier”), de uma cidade inglesa (“Brighton”) e evocou as lojas de recordações no México (“Mexican Gift Shop”).

O caleidoscópio de referências – geográficas e outras –, nos títulos das peças estende-se igualmente ao campo sonoro, com o grupo a desenvolver uma abordagem holística e multidimensional, com instrumentos orgânicos e subtis paisagens digitais, agregando elementos derivados do jazz, da música eletrónica e de uma certa pop bem pensante.

Este segundo disco do trio surge três anos depois da estreia homónima na SNP Records, após a qual a composição do grupo sofreu uma alteração – a saída do anterior baterista, Gautier Garrigue, entretanto substituído por Dolister –, mas a orientação sónica nem por isso.

As composições de Walker (oito das 11 que constam do programa) parecem dividir-se em várias secções, ancoradas em temas ou motivos rítmicos diferentes, com mutações mais ou menos polidas, que acentuam o seu caráter camaleónico. Atente-se, por exemplo, na alternância de ambiências em “M.C.” ou “Walking...”.

O lado acústico está patente, sobretudo, nas peças de pendor mais tranquilo, como “Cusba” (que nunca assume verdadeiramente contornos de balada) e “Brighton” (esta pecando por uma maior convencionalidade). Mas os momentos que mais merecem ser relevados são o “groove” trepidante de “Johnny Utah” – referência à personagem interpretada por Keanu Reeves no filme “Point Break” –, a tensão constante entre o saxofone relaxado de Walker e a bateria inquieta em “WK51”, e a atmosfera levemente dançável de “Left Over Shoes”, uma das duas composições de Dolister.

Uma proposta que, sem ser particularmente arrojada, comporta interesse suficiente para justificar audição.

  • Synesthesia

    Synesthesia (Cuneiform)

    The Kandinsky Effect

    Warren Walker (saxofone tenor, efeitos); Gaël Petrina (baixo elétrico, efeitos); Caleb Dolister (bateria, computador)