Skull Sessions

Rob Mazurek Octet: “Skull Sessions” (Cuneiform)

Cuneiform

António Branco

Visionário conceptualista e estratego sonoro, Rob Mazurek tem vindo a revelar ao mundo ao longo das últimas duas décadas a sua propensão para explorar diferentes mundos sonoros através de várias configurações instrumentais: Chicago Underground (duo, trio, quarteto, orquestra), Exploding Star Orchestra, Starlicker, Pulsar Quartet e São Paulo Underground, entre outras colaborações.

E também gosta de baralhar e voltar a dar, alargando, reduzindo e fundindo essas formações, de composição variável. É assim, por exemplo, no projeto Phraoah & The Underground (amalgamando os trios São Paulo e Chicago Underground no suporte ao veterano ícone do jazz livre, que ouviremos na 30.ª edição do Jazz em Agosto) e no Rob Mazurek Octet, que resulta da fusão entre a Exploding Star Orchestra e o trio paulista.

As cinco peças que integram “Skull Sessions”, a estreia discográfica do octeto, foram criadas como resposta a um desafio lançado a Mazurek pelo Serviço Social do Comércio (SESC) de São Paulo para o músico apresentar um trabalho integrado na exposição “We Want Miles”.

Apesar da forte influência do ideário jazz eletro-espacial “milesiano” em Mazurek, e sabendo-se este avesso a recriar obra alheia, a solução passou por sugerir à organização a criação de novas obras e de novos arranjos para peças mais antigas, adaptadas à inusitada constituição instrumental deste octeto – com corneta, vibrafone, rabeca /cavaquinho, flauta, guitarra, baixo e eletrónicas várias.

Mazurek tem à sua disposição uma notável assembleia de improvisadores capazes de fornecer a base ideal para tais manobras de exploração sónica. A música que aqui se ouve – ainda que envelopada pelo idioma do jazz – vai muito mais além das premissas do género, através da criação de atmosferas em constante metamorfose, que se expandem e contraem, em várias direções, num conjunto sonoro deliciosamente indefinível e que dinamita as habituais fronteiras composição vs. improvisação, analógico vs. digital, tradicional vs. moderno, passado vs. futuro.

“Galactic Ice Skeleton” – originalmente composta para a Exploding Star Orchestra – inicia-se com uma esparsa nuvem de eletrónica e percussão que se vai densificando através de um lento processo de acreção, criando um núcleo melódico em mutação, de onde se destacam as contribuições da corneta do líder e da flauta superlativa de Nicole Mitchell.

“Voodoo and the Petrified Forest”, peça concebida para o Chicago Underground Duo e que foi também trabalhada pelos Starlicker, é um turbilhão sonoro multicolor, marcado pelas percussões tribais e pelo vibrafone encantatório de Adasiewicz. Quando, para o final, o principal motivo é retomado, emerge a corneta imperial de Mazurek.

Dedicada ao cineasta franco-chileno Alejandro Jodorowsky, “Passing Light Screams” exibe Mazurek de novo a pairar sobre os ziguezagues da guitarra, da percussão e do vibrafone, até que dá início a um diálogo mágico com o vibrafone. Caos e ordem no seu eterno tango.

“Skull Caves of Alderon” abre com o vibrafone numa bela melopeia e prossegue em clima de intensa celebração com a rabeca (instrumento típico do nordeste brasileiro, muito associado ao forró) e a flauta em festa, num mergulho às raízes.

Improvisação para flauta (Mitchell excelente, de novo), rabeca e eletrónica, “Keeping the Light Up”, a peça mais curta do programa, encerra o ciclo, ligando as duas pontas da vida, como diria o grande Machado de Assis.

  • Skull Sessions

    Skull Sessions (Cuneiform)

    Rob Mazurek Octet

    Rob Mazurek (corneta, ring modulator); Nicole Mitchell (flautas piccolo e em dó, voz); Thomas Rohrer (rabeca, saxofone Cmelody); Carlos Issa (guitarra, eletrónica); Maurício Takara (cavaquinho, percussão); Guilherme Granado (teclados, eletrónica); Jason Adasiewicz (vibrafone); John Herndon (bateria)