Number Stations

Curtis Hasselbring: “Number Stations” (Cuneiform)

Cuneiform

António Branco

Em 2001, as autoridades dos Estados Unidos julgaram o grupo que ficou conhecido por “Cuban Five” pela acusação de espionagem a favor de Cuba. Os agentes cubanos infiltrados na Flórida receberam e descodificaram mensagens emitidas em onda curta a partir de estações numéricas cubanas.

Nesse mesmo ano, Ana Belen Montes, analista dos serviços de defesa norte-americanos, foi igualmente presa e acusada por atos de espionagem. As autoridades alegaram que Montes comunicava com os serviços secretos de Fidel Castro através de mensagens encriptadas contendo instruções, recebidas através de transmissões de onda curta provenientes da ilha das Caraíbas.

As estações numéricas, crê-se, surgiram pouco depois do final da Segunda Guerra Mundial, e são um tipo de emissoras de onda curta – cuja existência jamais foi admitida pelos diferentes governos – caracterizadas por estranhas emissões, utilizando muitas vezes vozes humanas (geralmente de mulheres, mas também de homens e crianças) ou vozes artificiais recitando em várias línguas séries aleatórias de números, palavras, melodias ou mesmo código Morse.

Foi este universo de guerra-fria o ponto de partida para o trombonista, guitarrista e compositor ligado à cena “downtown” nova-iorquina Curtis Hasselbring desenvolver o projeto “Number Stations”, nascido de uma suite composta em 2010 e comissionada pela Chamber Music America Doris Duke.

Nomes seminais do jazz mais desafiante e da música improvisada (Braxton, Zorn, Morris, Parker) desenvolveram sistemas próprios de direção das suas formações, através da utilização de códigos de cores, cartões com diferentes formas e dimensões ou sinalética gestual.

Os títulos das peças incluídas em “Number Stations”, registo que marca a estreia de Hasselbring na Cuneiform, são hipoteticamente descodificados a partir da informação numérica contida nas composições, funcionando como instruções subliminares para os músicos. Mas o certo é que a música que aqui escutamos acaba por não se revelar, em termos gerais, particularmente encriptada, sendo claro que a mesma condensa um vasto conjunto de referências de vários campos artísticos.

A formação que Hasselbring reuniu para esta aventura resulta da fusão de dois dos seus grupos mais emblemáticos: o longevo The New Mellow Edwards – com o saxofonista e clarinetista Chris Speed, o baixista Trevor Dunn e o baterista Ches Smith (no lugar de John Hollenbeck) – e o mais recente quarteto Decoupage – com a guitarrista Mary Halvorson, o vibrafonista Matt Moran e o percussionista Satoshi Takeishi.

A percussão críptica de Takeishi lança “First Bus to Bismarck”, que vai ganhado corpo sobretudo via guitarra e vibrafone, em torno de um motivo melódico de que emana uma vibrante intervenção do líder, em trombone.

Inspirada pela banda sonora composta por Mestre Hermmann para o filme “The Wrong Man”/“O Falso Culpado” (1956) – no qual Henry Fonda interpreta o papel do contrabaixista de jazz ´Manny´ Balestrero –, “Make Anchor Babies” é uma peça marcada pelo arranjo com sabor a Brasil que evolui para um padrão repetitivo, rampa de lançamento para Halvorson fazer o seu “tricot” elétrico.

Parecendo ser o centro de gravidade conceptual do disco, “It´s Not a Bunny” mostra os New Mellow Edwards a expor a soalheira melodia base, de certa forma questionada pelos Decoupage, com o vibrafone de Moran a fazer essa ponte entre as duas fações instrumentais.

O contraste temático acontece logo a seguir, com a atmosfera mais sombria e abstrata de “Stereo Jack´s Bluegrass J´s”. O disco encerra em tom festivo com uma peça estranhamente intitulada “37° 56´ 39´´ by 111° 32´”, que, de acordo com o Google Earth, corresponde à localização de uma estrada de terra batida conhecida como Hell´s Backbone, no Bryce Canyon National Park (o fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado chamou-lhe a “catedral gótica da Natureza”), situado no sudoeste do estado do Utah. O local ideal para um encontro secreto...

  • Number Stations

    Number Stations (Cuneiform)

    Curtis Hasselbring

    Curtis Hasselbring (trombone, guitarra elétrica); Chris Speed (saxofone tenor, clarinete); Mary Halvorson (guitarra elétrica); Matt Moran (vibrafone, marimba); Trevor Dunn (contrabaixo, baixo elétrico); Ches Smith (bateria, marimba); Satoshi Takeishi (bateria, percussão)