En Febrero

Demian Cabaud: “En Febrero” (Fresh Sound New Talent)

Fresh Sound New Talent

António Branco

Ao quarto disco como líder, o contrabaixista argentino Demian Cabaud – a residir entre nós há praticamente uma década – considerou que era, finalmente, chegado o momento certo para apostar naquela que considera ser a formação ideal: o trio piano-contrabaixo-bateria. Na realidade, sempre houve trio de piano nos seus discos anteriores: na peça-título de “Naranja”, “Si Llega a ser Tucumana”, no disco “Ruínas” e em três peças de “How About You?”.

Em entrevista recente à jazz.pt o músico menciona como luminárias no formato os trios de Thelonious Monk, Bill Evans, Paul Bley e Jacki Byard, o que constitui ampla base referencial.

Cabaud encontrou no compatriota Ernesto Jodos (seu antigo professor de harmonia, arranjos e improvisação), pianista, e no baterista Marcos Cavaleiro, seu cúmplice em vários projetos, os parceiros ideais para esta jornada, embora, enquanto trio, nunca antes tenham tocado juntos. Jodos estava em digressão pela Europa e Cabaud não desperdiçou a oportunidade para arranjar alguns concertos e tempo de estúdio.

O resultado é francamente proveitoso. Os vértices desta geometria revelam particular capacidade para desenvolver uma comunicação íntima que subverte a ultrapassada noção de subserviência da secção rítmica face aos ditames das 88 teclas. Essa democracia na repartição de riscos e responsabilidades é uma das dimensões mais interessantes da sonoridade global do trio.

As peças aqui incluídas – cinco de Cabaud e duas de Jodos, para além de outras tantas versões –, são sobretudo tempos médios de atmosfera soalheira, pasto para jogos de interação que parecem provar que as composições não estão fechadas, mas antes conservam espaço suficiente para que cada improvisador lhes acrescente a sua contribuição individual.

Característica marcante na abordagem do líder é a propensão para libertar o seu instrumento do habitual papel de esteio rítmico, de definidor das partes mais graves da harmonia, apesar de alcançar este equilíbrio de forma notável, assegurando os dois papéis num mesmo discurso.

Infelizmente desconhecido em Portugal, Jodos é uma excelente surpresa, apesar de ser há muito um nome importante no panorama argentino. Senhor de um pianismo elegante e fluido, mostra que tem os pés assentes na tradição do género, mas a ela não se deixa confinar, revelando-se um excelente comunicador e gestor de espaços. Cavaleiro tem crescido bastante e já conquistou por direito próprio um lugar entre os bateristas mais interessantes da nossa praça.

“Menos Mal” abre o disco em modo dinâmico e com a formação no pleno da empatia. A peça-título – originalmente escrita para “Devil's Dress”, da trompetista Susana Santos Silva – é alvo de uma releitura que lhe confere uma aura mais solene (a utilização do arco pelo contrabaixista sublinha-a). Acresce o peculiar timbre vocal de Akiko Pavolka, que canta um poema em japonês de sua autoria.

Em “Blus” contrastam o piano esparso e a efervescência rítmica. A bela melodia de “Redondas” revela o pianista a explorar um lado mais lírico, ainda que jamais enfermando de previsibilidade. Nota ainda para as linhas mais angulosas de “9:30”, outro dos picos de interesse.

Das versões apresentadas, prefiro a leitura pungente de “After the Rain” (de John Coltrane), embora em “Interplay” (emblema de Bill Evans) se encontre um excelente solo de Cabaud. “En Febrero” não reinventa o formato, mas decerto prestigia-o.

  • En Febrero

    En Febrero (Fresh Sound New Talent)

    Demian Cabaud

    Erneto Jodos (piano); Demian Cabaud (contrabaixo); Marcos Cavaleiro (bateria)