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eBraam: “3” (BBB)

BBB

Rui Eduardo Paes

Não, este “3” não tem o mesmo impacto do seminal “Third” dos Soft Machine, não obstante nos remeter para ele com propósito e intenção. E não, este eBraam não é propriamente um grupo dedicado a mimetismos da Canterbury Scene, se bem que um dos temas tocados, “A Certain Kind”, seja da autoria de Hugh Hopper.

Mas trata-se de mais um projecto que regressa a algumas pontas soltas do passado para desenrolar o novelo em direcção a outros (talvez não inéditos, mas sem dúvida que diferentes) desfechos – pontas essas que nos chegam do rock progressivo, do hard rock (Ten Years After?) e, sobretudo, do jazz de fusão, sendo facilmente detectáveis referências ao melhor George Duke, aquele que esteve com Frank Zappa e com Jean-Luc Ponty, e ao Herbie Hancock eléctrico de quando o antigo parceiro de Miles Davis ainda não se tinha rendido ao comercialismo.

E assim como o neoprog / neopsicadelismo dos noruegueses Elephant9 tem uma particularidade, o facto de o seu mentor, Stale Storlokken, ter vindo da improvisação electroacústica experimental, a fórmula eBraam revela logo à primeira aproximação um “twist” tão subtil quanto fundamental: o seu responsável, Michiel Braam, é um pianista chave do pós-free jazz e da música improvisada da Holanda, sendo conhecido, sobretudo, pelo seu trio (acústico, pois então) com Wilbert DeJoode e Michael Vatcher e por associações com, por exemplo, Frank Gratkowski.

Ou seja, de Braam não se esperava este interesse pela recuperação para o tempo presente das tendências electro que ficaram pelo caminho, nem se lhe tinha adivinhado uma especial consideração pelo rock e pelo funk. Acontece, porém, que aprecia os teclados produzidos pela evolução da tecnologia e a vontade de trabalhar com eles imperou. O seu fascínio pelo velho piano eléctrico Wurlitzer levou-a formar o Wurli Trio com o baixista Pieter Douma e o baterista Dirk-Peter Kolsch, tendo a mudança de nome do grupo para eBaam derivado da sua recente adopção de um Nord Stage Ex, um poderoso, mas fisicamente discreto, instrumento MIDI.

Agora que se deparou com a possibilidade de, com uma única e facilmente transportável ferramenta de trabalho, ampliar o seu espectro de timbres do piano eléctrico para o órgão e para o sintetizador, mantendo todas as características do som Seventies, Michiel Braam parece, finalmente, ter chegado ao nível que a sua música vinha anunciando. Um jazz-funk-rock largamente improvisado e muito livre, desconstrucionista nos solos e vincadamente riffado nos temas.

O disco vai crescendo em intrigantes revelações, cada vez mais nos puxando para dentro dos seus meandros em peças muito bem urdidas como “The Pindaric Ode”, “Pythagorean Theorem” ou “Triad”. Só a derradeira faixa, “A Certain Kind” precisamente, nos deixa com mau sabor na boca. Trata-se de um tema pop-rock vocalizado, lembrando-nos o outro lado da música que se fazia no período a que o projecto vai beber – um lado de confrangedora azeitice.

Recomendo-vos, pois, que se poupem ao susto e evitem essa última indexação no CD, pois o que antes vem é altamente gratificante…

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    3 (BBB)

    eBraam

    Michiel Braam (teclado MIDI, voz); Pieter Douma (baixo eléctrico); Dirk-Peter Kolsch (bateria)