Violino com (e sem) consciência

Jon Rose / Billy Bang / Phillipp Wachsmann / Mat Maneri

Violino com (e sem) consciência

Creative Sources

texto Rui Eduardo Paes

Quatro discos com quatro violinistas de topo (um deles na versão viola) saídos quase em simultâneo permitem-nos fazer o ponto da situação quanto ao entrosamento deste instrumento no jazz e na música improvisada.

Quando ouvirem o repetido – e incorrecto, como logo desde Ray Nance, Stuff Smith e Joe Venuti se verificou – lugar-comum de que o violino não é um instrumento apropriado para o jazz ou para a música improvisada, não acreditem. Em ambas essas tendências há muito que tal cordofone veio para ficar, e o certo é que são cada vez em maior número os músicos que o utilizam, bem como à sua variante alto, a viola.

Pois acontece que quatro dos vários violinistas que, com o seu percurso – e cada um à sua maneira –, para tal contribuíram, Jon Rose, Billy Bang, Philipp Wachsmann e Mat Maneri, têm discos novos a circular…

Entre eles, o primeiro vem desempenhando um papel especialmente destacado. Jon Rose é um fetichista do violino, não se coibindo, em muita da obra que deixou registada em disco, de incorrer no que vulgarmente se chama “formalismo”: editou álbuns de violino que tinham como tema o próprio violino. Recorrendo ao imaginário surrealista, colocou-o em contextos específicos (restaurantes, centros comerciais), interrogou-lhe o património histórico (Beethoven, por exemplo) e, inclusive, inventou personagens para explicar a sua evolução e a sua própria prática pessoal (a família Rosenberg).

As reflexões violinísticas sobre o violino deste músico anglo-australiano foram fundamentais para que o instrumento ganhasse uma consciência de si mesmo nas áreas da música que utilizam as metodologias da improvisação, esclarecendo factores que ainda eram nebulosos e iluminando melhor os caminhos possíveis.

Foram muitos os que Rose decisivamente contribuiu para abrir e podemos dizer que se trata de um dos grandes inovadores da música criativa na segunda metade do século XX, dada a sua decisiva contribuição para o desenvolvimento de afinações, técnicas de execução e perspectivas estéticas (chegou mesmo a aproximar-se do techno) alternativas às existentes – algo que está longe, ainda, de ser reconhecido pela crítica e pela musicologia, mais interessadas em seguir os fenómenos de moda. 

Fazia falta 

Desculpa-se, pois, que em “Colophony” a sua intervenção seja bastante convencional. Jon Rose já nada tem a provar e, de qualquer modo, este CD é já por si a manifestação de uma vitória. Durante vários anos o violinista lutou contra um cancro e conseguiu subjugá-lo, durante esse tempo tendo praticamente desaparecido de cena. O que importa nesta edição não é a exploração de novas soluções, e isso apesar de, no trio em que está inserido, constar um “laptoper” que é também um importante compositor da mais desafiante música erudita / experimental da actualidade, Richard Barrett. Relevante nela é, sim, o regresso com todo o seu brilho de uma voz do violino que fazia falta.

Assim, curioso é verificar que “Colophony” está mais próximo do que ouvimos em “Da Bang!”, o álbum póstumo de Billy Bang (a quem a mesma doença levou de vencida uns meros três meses depois da gravação deste trabalho), do que de “Gateway ‘97”, proposta de um quarteto fronteado por um violinista – Phillipp Wachsmann – com a qual seria suposto ter mais afinidades estilísticas.

Billy Bang

“Da Bang!” já não pode ser ouvido como um registo do mesmo homem que procurou colocar-se sobre os ombros do grande revolucionário do violino free jazz da década de 1960, Leroy Jenkins, para tentar ir mais longe, conectando os blues matriciais com a sofisticação clássica. Sem que na altura Bang tivesse consciência do que logo a seguir iria acontecer – a sua morte –, deu forma a um testamento em que faz as contas com o seu passado interpretando peças dos músicos que o influenciaram – Don Cherry, Ornette Coleman, Barry Altschull (que lhe dedicou o tema-título) e, porque no final da sua vida estava a revisitar os formatos do pós-bop para lhes tentar outros desfechos, também Sonny Rollins e Miles Davis.

De resto, os instrumentistas de que se fez rodear, Dick Griffin, Andrew Bemkey, Hilliard Greene e Newman Taylor-Baker, são a nata da presente abordagem free / bop…

O que este disco representa, nisso se assemelhando ao de Jon Rose com Meinrad Kneer e Barrett, é um cometimento com o essencial, um mergulho nas sustentações, na base, da música que Bang vinha fazendo. Tal como “Colophony”, também, “Da Bang!” proporciona-nos uma avaliação do “estado da nação violinística”, pois esta deduz-se tanto do que o violino vai acrescentando como das suas interrogações do que ficou para trás, num movimento pendular.

São óbvios os recuos realizados por estes lançamentos, mas tal surge como uma necessidade para um violino jazz / improvisado que se pretende cada vez mais “autoconsciente” e capacitado para intervir. Já “Gateway ‘97” é outra coisa e o facto de consistir num registo de 1997 que ficara na gaveta até hoje mais contribui para esta impressão. Com Pat Thomas, Alexander Frangenheim e Roger Turner, Wachsmann limitava-se na altura, tal como no presente (oiça-se, por exemplo, o seu mais recente “Imaginary Trio”), a simplesmente seguir o rumo que traçara muito antes.

A qualidade é inquestionável, mas não se detecta qualquer desvio dos parâmetros que eram e continuam a ser habituais a estes improvisadores. A música não avança, não se retira e não rompe com o contínuo de uma prática improvisacional que entrou há muito em modo de repetição – no caso apesar da então juventude de dois dos intervenientes, Thomas e Frangenheim. 

Pioneirismo e estagnação 

Ainda que se trate de um veterano da mesma geração de Evan Parker e Peter Brotzmann (e de Turner, o baterista aqui de serviço), Philipp Wachsmann forjou um uso do violino que muito cedo substituiu a noção de frase pela de textura, criando um mundo sonoro liliputiano e não-linear que antecedeu em várias décadas a tendência reducionista.

Phillipp Wachsmann

Surpreende que este mesmo visionário do violino tivesse acabado por estagnar, conformando-se com o seu estatuto de patrono de uma secção da música improvisada que se encontra já em declínio. Ouve-se “Gateway ‘97” e nenhuma lição se tira. Pelo menos uma lição positiva, pois fica-se a perceber que até um radical se pode tornar num conservador. Neste aspecto há, porém, outro regresso que nos deixa um mais deprimente amargo de boca: o de Mat Maneri em “Transylvanian Concert”, tendo a seu lado um pianista de feitos inconstantes, Lucian Ban…

Também Maneri esteve arredado da música durante um longo período, não devido a motivos de saúde mas por complicações financeiro-legais derivadas de um divórcio litigioso (tudo o que ele ganhava com concertos e discos ia parar à conta bancária da ex-mulher). É, pois, com expectativa que se pega neste CD, mas o que nele se descobre é uma clara cedência ao facilitismo e, enquanto tal, resulta em algo de musicalmente estéril.

Bem que o filho do grande pioneiro do dodecafonismo no jazz, Joe Maneri, se rebelava contra aqueles que esperavam que cada obra sua fosse mais um exemplo do violino microtonal, afirmando que há outras perspectivas igualmente interessantes a explorar, mas o que oferece aos seus admiradores neste tão esperado retorno é decepcionante. E é-o mesmo que lhe reconheçamos a virtude de se querer renovar.

Desta vez munido de uma viola, Maneri apresenta um jazz de câmara que não podia ser mais passivamente tonal, com melodias bonitinhas e uma laboração harmónica exclusivamente preocupada em encenar atmosferas para a acção do duo. As baladas, os blues, os hinos e até as improvisações livres encerradas no disco não têm a autenticidade da entrega de Billy Bang em “Da Bang!” ou a honestidade da performance de Jon Rose em “Colophony”. Nada transpiram, sequer, da teimosa coerência de Philipp Wachsmann em “Gateway ‘97”. É um registo mentiroso, em suma.

A viola de Mat Maneri perde o ego que conquistara (nisso emancipando-se, até, do próprio violino) e transforma-se numa personagem de teatro a papaguear um papel. Pode fazê-lo tão bem como antes do afastamento deste virtuoso executante dos palcos e dos estúdios, mas isso não chega… Resta só saber se, tal como os ditos violino e viola, é para ficar verdadeiramente (isto é, para fazer valer a sua presença) que Maneri voltou. Aguardemos pelos próximos episódios…

  • Colophony

    Colophony (Creative Sources)

    Jon Rose / Meinrad Kneer / Richard Barrett

    Jon Rose (violino, violino tenor); Meinrad Kneer (contrabaixo); Richard Barrett (electrónica)

  • Da Bang!

    Da Bang! (TUM Records)

    Billy Bang

    Billy Bang (violino); Dick Griffin (trombone); Andrew Bemkey (piano); Hilliard Greene (contrabaixo); Newman Taylor-Baker (bateria)

  • Gateway ‘97

    Gateway ‘97 (Creative Sources)

    Phillipp Wachsmann / Pat Thomas / Alexander Fragenheim / Roger Turner

    Phillipp Wachsmann (violino, electrónica); Pat Thomas (piano, electrónica); Alexander Fragenheim (contrabaixo); Roger Turner (percussão)

  • Transylvanian Concert

    Transylvanian Concert (ECM)

    Mat Maneri / Lucian Ban

     Mat Maneri (viola); Lucian Ban (piano)