A Hundred Silent Ways

Filipe Raposo: “A Hundred Silent Ways” (Fundação GDA / AMG Music)

Fundação GDA / AMG Music

António Branco

Após anos a emprestar o seu talento a algumas das figuras mais relevantes da música portuguesa – José Mário Branco, Fausto Bordalo Dias, Sérgio Godinho, Vitorino, para só nomear algumas –, Filipe Raposo lançou em 2011 o primeiro disco com a sua assinatura, o muito recomendável “First Falls”.

Em trio, explorou então a metáfora das “primeiras chuvas” – que só caem depois de completado todo um ciclo hidrológico – para descrever aquilo que considera ser o processo criativo de amadurecimento de ideias e conceitos até estes serem vertidos em música.

Regressa agora a solo, com “A Hundred Silent Ways”, título retirado de um poema de Mawlana Jalal-ad-Din Muhammad Rumi, poeta místico, jurista e teólogo sufi persa do século XIII: «Fechei a minha boca e falei-te de cem maneiras silenciosas / Ouviste os meus pensamentos, sabes o que está na minha mente».

Este é um exercício de focagem no essencial, demonstração inequívoca de maturidade e afirmação de uma vincada personalidade musical. Raposo continua a fazer da força telúrica da música tradicional – estilizando ritmos e melodias –, do rigor harmónico da música erudita e das potencialidades criativas da improvisação os alicerces fundamentais para a construção de uma obra sólida e coerente, que acaba por ser a sonorização de uma forma particular de conceber o mundo.

“A Hundred Silent Ways” transporta na sua origem a ideia de silêncio como espaço poético íntimo de referências e partilhas. A lista das composições é acompanhada por excertos de poemas, funcionando estes como janelas que deitam um olhar para o âmago dos sons escutados, assim se estabelecendo intensas conexões entre poesia e música. Realidades que o compositor ilustra musicalmente com recurso a um conjunto de técnicas aplicadas em função das particularidades de cada uma das peças: criação de efeitos texturais, sobreposição e justaposição de blocos, exploração de polirritmias e jogos contrapontísticos.

O seu pianismo permanece fluido e cristalino, exibindo um grande poder melódico eivado de uma carga poética que sintetiza toda essa constelação de sons e palavras. Escutem-se a imparável torrente melódica de “Todas as Noites do Mundo”, a beleza arrepiante de “With Closed Eyes” ou as leituras muito pessoais de temas tradicionais como “Oh Bento Airoso” (ritmicamente turbulento) e “Senhora do Almortão”, canção popular da Beira Baixa (imortalizada por José Afonso no álbum “Cantares do Andarilho”, de 1968), que aqui é objeto de notável reconfiguração.

“Careful Conversation”, peça totalmente improvisada, é um quase-tango na sua impetuosidade. Em “Fado Mudo”, Raposo mistura a linguagem do fado e o universo dos filmes mudos, numa deliciosa hibridação. O disco encerra com uma peça referencial, o Adagio (BWV 564) de Johann Sebastian Bach, a partir da transcrição para piano do registo orquestral do órgão de tubos, efetuada pelo pianista e compositor italiano Ferruccio Busoni.

Com “A Hundred Silent Ways”, Filipe Raposo traduz na perfeição as palavras de António Ramos Rosa: «Mas entre mim e os meus passos há um intervalo: então invento os meus passos e o meu próprio caminho.» Belíssimo.

  • A Hundred Silent Ways

    A Hundred Silent Ways (Fundação GDA / AMG Music)

    Filipe Raposo

    Filipe Raposo (piano)