Os Acheiropyta da Noruega

1982

Os Acheiropyta da Noruega

Hubro

texto Gonçalo Falcão fotografia Uli Templin

Há uma banda do Norte da Europa a que importa dar toda a atenção, pois encaixa com a velha ideia grega de uma construção natural surgida por intervenção divina. Estes são os dois discos mais recentes que editou, tocando apenas com mãos e madeiras…

Os 1982 são uma das minhas grandes surpresas positivas deste ano. Só os conheci agora, no Sines em Jazz, mas tocam juntos há oito anos. Estes são os seus dois últimos discos, que, não sendo edições recentes, são importantes de ouvir.

O trio norueguês tem uma instrumentação rara: violino tradicional norueguês (“hardanger”), harmónio (um pequeno órgão de fole alimentado a pedais) e bateria. Se o violinista Nils Økland tem uma longa carreira musical, com registos discográficos dispersos por editoras importantes (ECM, Rune Grammofon, etc.), a actividade dos dois outros elementos é mais recente, mas não menos significativa.

Øyvind Skarbø é um grande baterista, usando registos “pianíssimo” que parecem um contra-senso no instrumento, mas funcionam na perfeição, e Sigbjørn Apeland usa o harmónio, o Wurlitzer e a melódica com imenso interesse, uma atitude exploratória e disponibilidade para o inesperado, o que o faz flutuar entre o lirismo mais encantador e a abstracção. Os 1982 são um encontro feliz de personalidades e instrumentações que parecem feitas para se unirem.

Quando o uso de imagens pela Igreja Católica era ainda uma matéria de grande discussão, entre os séculos VII e VIII, surgiu uma ideia expedita para resolver uma série de questões. As Acheiropyta (do Grego “o que foi feito sem as mãos humanas’) eram imagens “encontradas”, produzidas na natureza através de intervenção superior. Ora, a música dos 1982 parece Acheiropyta, vinda da natureza, quase pura, cheia dos erros e imperfeições típicos do que é natural, mas veículo de uma ordem lógica: como quando viajamos de carro e a música e a paisagem se unem como por magia.

Este grupo a-tecnológico - que tudo faz com mãos e madeiras - toca uma música pura, lírica, belíssima, onde tudo encaixa bem. Improvisação total assente numa grande vontade melódica e num sentido camerístico em que cada pormenor instrumental é significativo e ressoa colectivamente. Tem humor (sim, humor norueguês; ao que chegámos!), é tonal, move-se e, contudo, parece ser sempre a mesma. 

Rural e contemporâneo 

Com o violino do folclore norueguês e o harmónio instala-se um certo ambiente ruralista, mas a música, soando tradicional, é ao mesmo tempo sofisticada, erudita, contemporânea. Para aqueles que acham que a improvisação total só pode resultar numa música pica-miolos, não-idiomática, centrada em si mesma, egoísta, os 1982 vêm mostrar que é possível fazer parte de um momento de grande beleza melódica e ser altamente positivo sem qualquer tipo de acordo prévio. “Pintura”, de 2011, tem uma beleza espiritual e uma envolvência alegre que impressiona quem se disponibilizar a ouvi-lo.

A grande novidade de “1982 & BJ Cole” é o convite feito a um guitarrista “pedal steel” para acompanhar o trio. O som de BJ Cole evoca fortemente o de Bill Frisell, mas a sua música é muito diferente. A escolha foi puramente musical, ou seja, a banda achou que este tipo de guitarra se integraria bem com o som do harmónio e do violino e não porque alguma vez tivessem tocado juntos.

O risco deu muitos bons resultados, e isto apesar de Cole não ter actividade nos domínios do jazz ou da música improvisada: encontramo-lo, sim, em projectos do pop/rock mais inovador de gente como Bjørk, Brian Eno, David Sylvian, R.E.M. e Scott Walker.

Um grande sentido melódico domina o álbum, cortado por incomuns ideias dos músicos, erodindo qualquer tentativa de se deixarem vencer pelo conforto da música popular e criando novos pólos de interesse num contínuo que é imprevisivelmente previsível. Skarbø raramente ritma a música com a bateria, antes introduz texturas percussivas, desarranjos naquele universo que arriscaria ser demasiado perfeito e mavioso sem a sua intervenção.

A editora Hubro é uma surpresa escandinava a que convém estar mais atento.

  • Pintura

    Pintura (Hubro)

    1982

    Nils Økland (violino hardanger, violino); Sigbjørn Apeland (harmónio, Wurlitzer); Øyvind Skarbø (bateria)

  • 1982 & BJ Cole

    1982 & BJ Cole (Hubro)

    1982 & BJ Cole

    Nils Økland (violino hardanger, violino); Sigbjørn Apeland (harmónio, Wurlitzer); Øyvind Skarbø (bateria) + BJ Cole (guitarra pedal steel)