Do Brasil para o mundo

Alberto Conde Atlantic Trio & Carmen Durán

Do Brasil para o mundo

Karonte

texto Rui Eduardo Paes

Sai para os escaparates no início de Outubro o novo grande projecto do pianista e compositor galego, “Villa-Lobos: A New Way”. Exacto: Villa-Lobos em formato de jazz com canto lírico e percussão indo-magrebina, no integral respeito das partituras originais do brasileiro. Mas não do conceito que estava por detrás das Bachianas e dos Choros – em vez de nacionalismo musical, o que encontramos é um libelo universalista.

O tempo tem o condão de fazer com que o alcance das realizações do passado ganhe outros significados. Quando, no início do século XX, o compositor brasileiro de ascendência espanhola Heitor Villa-Lobos compôs as suas Bachianas e os seus Choros, a motivação que o justificava era, simplesmente, a de criar uma música “de arte” com a identidade do Brasil.

Uma decisão de carácter nacionalista e patriótico (no sentido protofascista desses termos – Hitler, Mussolini, Franco e Salazar estavam a chegar –, comprovado pelos serviços que prestou à ditadura de Getúlio Vargas) tornar-se-ia numa das primeiras grandes manifestações da universalização cultural que caracteriza a presente era pós-moderna.

Como é que uma condição se transformou na sua antítese? Simplesmente, Villa-Lobos foi ouvido na Europa de outro modo que não o que o próprio antecipava.

Na precisa altura em que emergiam as vanguardas artísticas que determinariam todas as que depois se sucederam, e em que se valorizaram as expressões “exóticas” e “selvagens” como fontes de inspiração, a América Latina, tanto quanto África e a Ásia ou as mutações que no hemisfério Norte as músicas dessas regiões do globo iam tomando (o jazz americano estava a ser descoberto no Velho Continente), trazia um elemento de diferença a uma cultura que ansiava por renovação e abertura. 

Malgré lui

Heitor Villa-Lobos 

Quando o natural do Rio de Janeiro chegou à mesma Paris em que brilhavam Pablo Picasso e Amedeo Modigliani o seu impacto foi tremendo. Com ele trazia uma música com o secular formato da erudição europeia, mas os sons desta pareciam vindos de outro planeta. Villa-Lobos percorrera o interior brasileiro para anotar os vocabulários e os processos musicais das comunidades índias e de antigos escravos africanos e era com esses materiais – bem como com os seus derivados “de rua” nos meios urbanos – que escrevia as suas partituras para piano ou quarteto de cordas.

“Villa-Lobos: A New Way”, do compositor e pianista Alberto Conde, é o corolário desta evolução e a mais óbvia confirmação do universalismo “malgré lui” desse pioneiro. E todos os factores se reúnem para que assim seja…

Galego de nascimento (factor importante quando se sabe da importância que a emigração galega teve para a construção do Brasil), Conde é o mais importante promotor disso a que se chamou “muiñeira jazz”, mescla de jazz com o folclore da Galiza e com elementos da tradição clássica europeia. Ninguém melhor do que este músico de Vigo, na verdade, para acentuar a vertente “world music” de Villa-Lobos, ainda que tenha sido uma premissa deste projecto interpretar o autor com a maior das fidelidades – os arranjos para trio de piano jazz (com Kin García no contrabaixo e Miguel Cabana na bateria, ou seja, o Atlantic Trio) não podiam ser mais respeitosos das partituras originais.

E até as peças compostas pelo também professor no Conservatório de A Coruña se inspiram inteiramente nas lógicas internas que singularizaram o homenageado há quase 100 anos, um feito ainda mais surpreendente. 

Unir o que é diferente

Nirankar Khalsa e Alberto Conde 

Fá-lo ainda Alberto Conde, nesta obra, com a inclusão da cantora lírica Carmen Durán a utilizar textos, escritos em Português, do brasileiro J.R. Bustamante. Uma escolha deveras pertinente tendo em conta a relação de amor-ódio – conflito esse bem representado no presente disco – que Villa-Lobos teve com o formato ópera.

Mas há mais: outro colaborador de “Villa-Lobos: A New Way” é o percussionista afro-americano Nirankar Khalsa, que surge aqui a tocar instrumentos da Índia (tablas) e do Magreb (derbuka, djembé). O simbolismo desta participação é particularmente forte: se por um lado representa o fundamento norte-americano do jazz, por outro amplia a dimensão desta proposta para além do eixo Brasil / Galiza, ou mesmo da mais ampla relação América Latina / Europa.

É inclusivista e sincrética a tal “música do mundo” que Heitor Villa-Lobos desapercebidamente contribuiu para forjar com os seus esforços de nacionalismo musical. Se compositores europeus contemporâneos do carioca como Debussy e Ravel recorreram a fórmulas provenientes das músicas orientais, Conde estava também consciente de que muitos dos grandes nomes da história do jazz procuraram inspiração no islamismo e na espiritualidade hindu.

Ou seja, há uma conexão entre Kahlsa e Villa-Lobos, mesmo que esta não pareça evidente. E essa ligação é configurada por Alberto Conde, um homem do mundo que com este disco transforma um conceito musical pré-fascista num libelo antifascista e que vem dedicando a sua vida a unir o que é diferente, sem provocar falsas convergências.

  • Villa-Lobos: A New Way

    Villa-Lobos: A New Way (Karonte)

    Alberto Conde Atlantic Trio & Carmen Durán

    Alberto Conde (piano, arranjos, composição); Carmen Durán (voz); Kin García (contrabaixo); Miguel Cabana (bateria) + Nirankar Khalsa (percussão); J.R. Bustamante (textos)