Cérebro: Estado Zero

Desidério Lázaro: “Cérebro: Estado Zero” (Sintoma Records)

Sintoma Records

António Branco

Quando, em 2010, o saxofonista Desidério Lázaro se deu a conhecer discograficamente, surpreendeu muita gente. De facto, com “Rotina Impermanente” (JACC Records) lançou, em trio – com Mário Franco no contrabaixo e Luís Candeias na bateria – as bases de uma abordagem pessoal feita a partir do processamento de influências marcantes – com Coltrane, Rollins e Lacy à cabeça. Dois anos depois, seguiu um impulso criativo e gravou “Samsara”, já na Sintoma Records, em quinteto, registo que segue uma orientação muito mais “groovy”, marcada decisivamente pelas guitarras.

No estranhamente intitulado “Cérebro: Estado Zero” – o período, mesmo que infinitesimal, em que é possível estagnar o cérebro em termos de fluxo de pensamento –, Lázaro, que há muito deixou para trás o rótulo de promessa,  consolida o seu lugar no núcleo dos mais relevantes sopradores nacionais. Nele concretiza a vontade de lançar um segundo disco com o trio original e fá-lo porque este é um formato que gosta de explorar pelas características e possibilidades que oferece para a experimentação e a surpresa.

Para “Cérebro: Estado Zero” o saxofonista algarvio retoma várias peças cuja composição data do tempo de “Rotina Impermanente”, que o grupo entretanto apresentou ao vivo. Ao contrário dos registos anteriores, nos quais se pressentia a existência de um fio condutor, o novo disco é a tradução musical de um conjunto de estados emocionais que o autor foi experienciando ao longo de dois anos.

Fica claro que é operado um cruzamento entre o lado mais introspetivo da estreia e as energias positivas de “Samsara”, ressaltando evidente a empatia entre os três músicos, com contrabaixista e baterista a contribuírem cada qual com um tema original, o que equilibra o cômputo da disposição dos temas.  

Lázaro volta a assumir uma maior exposição enquanto solista e improvisador, explorando com rigor e sobriedade aspetos relacionados com a expansividade e a qualidade do som. A dupla rítmica revela-se particularmente coesa, com Franco em grande forma – reivindicando um protagonismo como há muito não tinha – e Candeias a ser um dínamo consistente e criativo. Por vezes o saxofone posiciona-se enquanto acompanhador e o contrabaixo toma o papel melódico, subvertendo, de certa forma, a lógica habitual dos respetivos instrumentos.

A abrir o programa, “Pano Verde”, com o líder em soprano, desenvolve-se em torno de um motivo central que vai sendo progressivamente reconfigurado. Em “Pelas Bandas de Tavira”, também neste instrumento, o músico parece evocar a sinuosidade dos derradeiros quilómetros do rio que atravessa a cidade onde cresceu.

Toda a sua apurada sensibilidade melódica fica patente na solenidade de peças como “Sorriso” (notável a altiva prestação de Lázaro em tenor) e “Uma Balada”. Particularmente interessante, “3.º Esquerdo”, com o seu início fragmentado, mostra Franco exímio na utilização do arco e Candeias consequente na manipulação de acessórios diversos. “Blues Hesitante”, de Franco, opta por um “swing” declarado, com o baterista utilizando escovas tão discretas quanto eficientes. “Sermão à Alma” e “Meditação II” exibem uma componente filosófica e espiritual tão cara ao autor.

“Cérebro: Estado Zero” é mais uma mostra de maturidade e vitalidade criativa de um músico com muito para dar ao jazz nacional.

  • Cérebro: Estado Zero

    Cérebro: Estado Zero (Sintoma Records)

    Desidério Lázaro

    Desidério Lázaro (saxofones tenor e soprano); Mário Franco (contrabaixo); Luís Candeias (bateria)