Shadow Man

Tim Berne’s Snakeoil: “Shadow Man” (ECM)

ECM

Rui Eduardo Paes

Na sua segunda edição pela ECM, os Snakeoil de Tim Berne não repetem a produção de Manfred Eicher, o homem que definiu a muito particular sonoridade da editora – é o próprio saxofonista que toma essa responsabilidade em parceria com um músico da casa, David Torn. O típico tratamento ECM surge através do guitarrista, mas em relação ao anterior “Snakeoil”, ainda quando este quarteto se chamava Los Totopos, está neste novo “Shadow Man” um melhor equilíbrio com o pré-existente “som Tim Berne”.

Ou seja, aqueles que torceram o nariz quando souberam que o discípulo de Julius Hemphill tinha entrado no catálogo alemão, e que não ficaram convencidos com a (inegável, quanto a mim) qualidade de “Snakeoil”, encontram no segundo título do grupo com Oscar Noriega, Matt Mitchell e Ches Smith algo de mais consentâneo com o Berne “underground” da etiqueta Screwgun. Com a vantagem de, garantida essa ligação, estarmos perante uma efectiva mudança de rumo. O também compositor percebeu que estagnar é a morte de qualquer artista, e se escolheu a ECM para o fazer só podemos concluir que foi para verificar quão longe poderia ir sem comprometer a sua “voz”. O certo é que não só não a fragiliza, como ganha com o desafio.

Nem tudo resulta perfeito, no entanto. Na base do conceito Snakeoil está o extremar da oposição entre as duas componentes de sempre que identificam a música de Tim Berne, a complexidade da composição e o “drive” muito espontâneo das partes improvisadas. É óptimo verificar como as zonas abertas de “Shadow Man” entram em ebulição, mas aquelas em que impera a escrita ganham, no seu desenho stravinskyano, um maneirismo e um barroquismo verdadeiramente irritantes. O enfeite composicional surge apenas e somente porque sim.

Felizmente, ouvir os contributos de cada um dos músicos reunidos distrai-nos dessa tendência para “compor demais”. Com todas as suas referências na new music, Noriega é o contrário do muito influenciado pela soul e pelo funk Berne, pelo que encontrá-los juntos nos sopros resulta numa deliciosa multiplicação de perspectivas. O pianista é bem diferente do habitual parceiro do líder, Craig Taborn: enquanto este tem um “playing” concêntrico, muito focado, os pianismos de Mitchell irrompem como fagulhas, enchendo o ar. Por sua vez, Smith pode ter uma rítmica roqueira, mas é o menos óbvio dos bateristas que ultimamente têm tocado nas bandas bernianas. Além de que, com o vibrafone, introduz um novo jogo de cores no conjunto.

Tais características ainda ficam mais em evidência graças às estratégias prosseguidas: ao longo do CD há uma sucessão de duos que vão experimentando diferentes combinações, o que significa que há um permanente refrescamento de ideias. Não fora o delírio ornamental do próprio Tim Berne e falaríamos em excelência, mas como este se faz sentir, ficamos apenas lá perto…

  • Shadow Man

    Shadow Man (ECM)

    Tim Berne’s Snakeoil

    Tim Berne (saxofone alto); Oscar Noriega (clarinetes soprano e baixo); Matt Mitchell (piano, piano de tachas, piano eléctrico Wurlitzer); Ches Smith (bateria, vibrafone, percussão)