Keith Jarrett: “No End” (ECM)

Rui Eduardo Paes

Se de um título de Keith Jarrett o menos que podíamos esperar era encontrar o aviso “play it loud”, eis que ele nos troca as voltas. O seu novo lançamento na ECM, marcado para o final deste mês de Novembro, precisa mesmo de ser ouvido com o volume para cima a fim de nos apercebermos não só do “vibe” sonoro como dos pormenores. Mas não é só isso: o piano é relegado para uma secundaríssima função e o que a superestrela do jazz toca é guitarra (fazendo até lembrar Jerry Garcia), baixo, bateria e uma imensa panóplia de percussões, utilizando o princípio da sobregravação em multipistas. Sim, como em “Spirits”, de 1985, mas mais eléctrico, mais rock e mais funk.

O registo, atenção, não é de agora. Jarrett realizou-o em 1986, no seu estúdio. Trata-se de material inteiramente improvisado, como de resto se nota no seu carácter “free flowing” e de “jam”. Em muitas sequências é, aliás, óbvia a influência do período de Miles Davis que contou, precisamente, com o envolvimento do pianista. Alguns momentos são bastante interessantes, mas este duplo álbum não é mais, na realidade, do que uma simpática curiosidade, sem maior valor musical que se acrescente ao que já sabemos do seu autor.