Traces of Cities

Manuel Linhares: “Traces of Cities” (edição de autor)

Edição de autor

António Branco

Se em termos femininos até estamos relativamente bem servidos – em quantidade e qualidade –, os dedos de uma só mão chegam e sobram para representar os homens que em Portugal cantam jazz. Um dos representantes do género masculino neste ofício cantante é Manuel Linhares, nascido na ilha açoriana do Faial, mas que muito novo rumou com a família para a cidade do Porto.

Lá desenvolveu boa parte do seu percurso académico, passando pela Escola de Jazz do Porto e licenciando-se em Canto Jazz pela Escola Superior de Música, Artes e Espetáculo (ESMAE). A sua formação passou também por cidades como Barcelona, onde estudou no Taller de Músics (em tempos dirigido pelo nosso Zé Eduardo) e Berlim. Avulta ainda o facto de ter integrado, entre 2007 e 2010, o grupo “a capella” Canto Nono, dirigido por José Mário Branco.

Neste seu primeiro disco, “Traces of Cities”, o cantor apresenta um repertório de originais em português e em inglês, denotando um forte apego à matriz jazzística, mas onde são percetíveis outras referências. Tematicamente, é um álbum sobre cidades, os seus espaços e formas, ritmos e silêncios.

Para além da vertente interpretativa, Linhares apresenta-se igualmente como compositor (incluindo a vertente letrista), percebendo-se que está à procura do seu próprio caminho, leia-se de processamento de referências e amadurecimento de uma abordagem pessoal. Excetuando uma, todas as composições incluídas no programa são de sua autoria.

Acompanham-no Xosé Miguelez no saxofone tenor, e uma secção rítmica – discreta mas competente – constituída por Paulo Barros ao piano, José Carlos Barbosa no contrabaixo e Filipe Monteiro na bateria. Como convidado, surge também Rui Teixeira no saxofone alto e no clarinete baixo.

Com um registo vocal elegante, de traço “sinatraniano”, dicção cuidada e apurada noção de tempo, aparenta sentir-se particularmente à vontade navegando em águas tépidas, apostando sobretudo nas baladas e nos tempos médios. Sendo poucas as exceções, são precisamente esses momentos de contraste os que deixam melhor impressão.

Com a sua atmosfera soalheira, “Flight of the Sparrow” é um dos momentos mais interessantes do disco e nele opta – como noutras composições – por um canto sem palavras, seguindo uma evidente tendência do canto jazz global, desenhando tangentes ao universo desenvolvido por Theo Bleckmann, que se pressente ser importante influência.

Merecedoras de nota são também “Hope” – com a sua tranquilidade otimista –, peça original do pianista, alguém que continua a marcar positivamente as gravações onde intervém, e “After the Rain” (nada a ver com a peça emblemática de Coltrane), com o contrabaixista a chegar-se à frente. Coincidência, ou talvez não, todas estas peças contam com a relevante contribuição do clarinete baixo de Rui Teixeira. Mais previsíveis são “April’s Perfume” e “Silent Thrill”, baladas de recorte clássico (na aceção jazzística, entenda-se).

Uma estreia que, não convencendo por inteiro, deixa ainda assim boas pistas para o futuro. Logrando libertar-se de algumas amarras estéticas que lhe tolhem os movimentos, decerto ocupará um lugar de destaque no panorama do jazz vocal nacional.

  • Traces of Cities

    Traces of Cities (Edição de autor)

    Manuel Linhares

    Manuel Linhares (voz); Xosé Miguelez (saxofone tenor); Paulo Barros (piano); José Carlos Barbosa (contrabaixo); Filipe Monteiro (bateria) + Rui Teixeira (saxofone alto, clarinete baixo)