Branco

Miguel Ângelo: “Branco” (Carimbo Porta-Jazz)

Porta-Jazz

António Branco

Nos anos mais recentes tem-se acentuado a evidente tendência – que, contudo, vem muito de trás –, de a cidade do Porto ser pródiga em fornecer ao jazz nacional músicos e discos de valor. Uma parte substancial desse trabalho tem vindo a ser desenvolvido pela Orquestra Jazz de Matosinhos e pela Associação Porta-Jazz, e, no seio desta, pelo seu braço discográfico, a editora Carimbo Porta-Jazz, cujo catálogo continua a avolumar-se em quantidade e qualidade.

O exemplo mais recente é “Branco”, disco de estreia em nome próprio do contrabaixista e compositor Miguel Ângelo. Licenciado em Contrabaixo/Jazz pela Escola Superior de Música, Artes e Espetáculo (ESMAE) do Porto, Miguel Ângelo era já um músico conhecido na cena portuense, embora só agora – e em boa hora – o seu trabalho começa a conhecer visibilidade e reconhecimento mais alargados. Para além da valia técnica inquestionável enquanto instrumentista, expõe-se também na vertente composicional, assinando a totalidade do programa.

“Branco” compila peças que o contrabaixista compôs desde 2009 e que espelham todo um percurso anterior, académico e de colaboração com várias formações, cruzando influências diversas. A formação que acompanha o contrabaixista neste primeiro disco completa-se com João Guimarães no saxofone alto, Joaquim Rodrigues nos pianos acústico e elétrico e Marcos Cavaleiro na bateria.

O quarteto exibe-se em bom plano, valorizando uma escrita que potencia a criatividade individual como mecanismo essencial para o desenvolvimento do som global da formação. O saxofonista, com a sua sonoridade madura e o seu belo timbre, deixa uma marca indelével em todas as peças e reclama outros voos. Joaquim Rodrigues mostra-se competente quer a garantir consistente suporte harmónico quer no plano solista. Cavaleiro é um baterista cada vez mais completo, tão hábil a suprir dinamismo rítmico como a desenhar delicadas acentuações, desenvolvendo uma interação cúmplice, por vezes subliminar, com o contrabaixista.

Miguel Ângelo revela clara preferência pelos tempos médios de recorte sóbrio, melodicamente requintados e embebidos no rigor da linguagem do jazz, embora a marca do rock surja, aqui e ali, camuflada, mais no domínio conceptual do que na forma concreta assumida pelas composições.

Pressente-se, porém, em certos momentos, que a adição de alguma liberdade formal talvez pudesse ser benéfica e incrementasse a riqueza da pena, sobretudo pela exploração de contrastes mais pronunciados. O centro gravitacional do disco parece posicionar-se na peça que lhe dá título, com o seu início solene e um ondulante desenvolvimento melódico, avultando as linhas traçadas pelo saxofonista e a delicadeza do trabalho do baterista.

Interessante é também “Cem”, em que a dança entre piano e saxofone não deixa de trazer à memória a dupla Pinho Vargas/Nogueira. Em “TraMal” (uma alusão ao medicamento com o mesmo nome) Miguel Ângelo lembra o “contrabaixo cantor” de Eberhard Weber, suportando o pianismo fluido e gracioso de Rodrigues. Notas ainda para a luminoso “Maior” e para “Já Não Voltas”, balada de travo “vintage” adocicada pelo saxofone e com conseguida intervenção do contrabaixista.

“Branco” desvenda um músico de inegável talento, cujos passos importa continuar a acompanhar.

  • Branco

    Branco (Porta-Jazz)

    Miguel Ângelo

    Miguel Ângelo (contrabaixo); João Guimarães (saxofone alto); Joaquim Rodrigues (piano, Fender Rhodes); Marcos Cavaleiro (bateria)