Música gestual

Ernesto Rodrigues

Música gestual

Creative Sources

texto Rui Eduardo Paes fotografia Carlos Paes

O gesto tem cada vez maior importância na música do violetista português, e é por essa via que a sua improvisação reducionista está mais próxima dos conceitos aplicados na chamada noise music. Pois oiçamos os seus nove discos mais recentes…

A ideia de gesto nas artes tem um duplo atributo – respeita tanto ao resultado (uma pincelada, um som) como ao movimento que o produziu. Regra geral, porém, o que o apreciador da obra artística percepciona é a realização sem o movimento, sendo este apenas imaginado. E é neste ponto que se introduz um elemento desorientador, pelo menos no que à música diz respeito: há sequências sonoras que entendemos como gestuais, pelo modo como nos surgem na audição de um disco (regra geral, num concerto vemos o que ouvimos), mas dificilmente visionamos como foram realizadas – acontece tal, sobretudo, nas criações electroacústicas que aplicam os princípios do concretismo, com a anulação da “causa sonoris” para uma totalmente autónoma vivencialidade do som.

Se poderíamos dizer, assim sendo, que o desconhecimento da fisicalidade do gesto anula o seu efeito perceptível, o certo é que tal não acontece. Na música, a própria fisicalidade do som basta para concluirmos dessa abordagem gestual. Há um movimento intrínseco e uma imaginação do movimento, ainda que esta seja imprecisa. Os conceitos instalados quanto ao gestualismo sonoro têm como quadro a música escrita de tradição académica, vulgo “clássica” – o gesto está predefinido, restando apenas ser realizado em cada performance. Esse gesto pode ter uma curta duração, mas não é efémero. A notação estipula que se repita.

Quando se trata de música improvisada, prática iminentemente performativa, não há previsão e muito provavelmente também não haverá repetição. Nem por isso a importância do gesto se relativiza face à consequencialidade do som: este aconteceu e foi determinante para a trama que se desenvolve, mesmo que o seu momento passe depressa, para não mais voltar. Se essa improvisação é gravada, reencontramo-lo. O gesto musical improvisado pode ser fugaz, mas é tão efectivo quanto algo que cuidadosamente se coreografe.

Ernesto Rodrigues é um músico gestual e um improvisador, e a diferença que o seu gestualismo improvisado tem com o gestualismo clássico não está somente na inexistência de uma partitura que lhe conduza os movimentos. É a forma como utiliza o instrumento que define esse corte com a previsibilidade. Os sons que produz nem sequer são possíveis de notar, pelo menos convencionalmente – na maior parte dos casos não se trata de notas, ou seja, sons musicais, e sim de ruídos (por definição: sons “sem significado”) provocados pela manipulação de todo o corpo da sua viola (também da harpa, que toca em dois dos títulos aqui referidos, e da armação interior do piano). 

Uma unha sobre a madeira

 

Ora, o ruído consegue ser bem mais gestual do que um som temperado, um tom. Quando ouvimos um raspanço, imaginamos algo a raspar. O som é o gesto, o gesto é o som. Mas atenção: não é necessariamente uma unha sobre a madeira da viola que nos vem à mente. As possibilidades imagéticas são imensas, dando a este tipo de improvisação um carácter cinemático sem igual. Daí decorre que tanto a estética reducionista, tendência em que Rodrigues se insere, como a chamada “noise music” – também ela muito frequentemente improvisada – sejam ambas músicas gestuais, e exactamente pelos mesmos motivos. Nesse aspecto, pouca diferença faz que no reducionismo se proceda ao “close miking” do sussurro e que no noise se explore esse excesso de sinal sonoro a que se chama “feedback”.

O interessante nesta similitude de posicionamentos é o facto de a corrente reducionista estar gradualmente a assumir-se como uma música noise, uma música de ruído. O volume será, sem dúvida, consideravelmente mais baixo do que qualquer coisa que Merzbow e Pita façam, mas longe estão os lançamentos de que aqui damos conta da ortodoxia “near-silence” de há uns anos. A não ser um deles, “Late Summer”, que no contexto da actividade do violetista português nestes últimos tempos só posso entender como a sua homenagem pessoal ao ideólogo do minimalismo improvisacional extremo, Radu Malfatti, agora que dele parece ter-se distanciado. Não deixa de ser revelador que este duplo álbum registado com o próprio Malfatti (e com Ricardo Guerreiro, à semelhança de “Shimosaki”, edição da B-Boim) seja o menos interessante do lote.

O que não surpreende, de resto. O grande problema do trombonista alemão foi nunca ter compreendido o carácter ambíguo do gestualismo na improvisação. No seu conflito com o expressionismo do free jazz e da música improvisada “old school” (aquela mais próxima da matriz jazzística), Malfatti entende o gesto como a demasia da expressão e não algo com uma multiplicidade de nuances – tal como, aliás, nos demonstra o Butô japonês. Um episódio confirma esta sua postura – no final de um concerto do trio que a presente formação inevitavelmente recorda devido ao semelhante instrumentário, a que manteve com Phil Durrant e Thomas Lehn, criticou neste último o “excesso” de movimentação física com o argumento de que tal histrionismo não era um factor de “silêncio”.

O que até está em contradição com o que ouvimos na segunda longa peça de “Late Summer”: muito à maneira de John Cage, os sons envolventes do bulício urbano são incorporados na narrativa musical. A transversalidade do reducionismo com o noise está aqui muito evidente, mas o procedimento não terá sido entendido como tal pelo músico. É, no entanto, de presumir que assim o assumiram os intervenientes nacionais, desse modo equilibrando uma colaboração em que se verificam algumas concessões relativamente aos postulados pessoais de Radu Malfatti.

Estas questões fazem-se sentir particularmente em “Monochrome Blue Sans Titre”, o CD de tributo ao pintor Yves Klein proposto pelo ensemble IKB. O interessante deste trabalho, e deste agrupamento de 14 elementos dirigido por Ernesto Rodrigues com alguns dos nomes mais importantes da improvisação lusa, não reside propriamente num esforço de contenção colectiva, e sim de focagem, de concentração. De um ponto de vista malfattiano, há demasiados sons a acontecerem, demasiados cortes na superfície do silêncio. Mas são, precisamente, os jogos de timbres aquilo que mais agrada no disco, a forma como cooperativamente se vão construindo as situações, sem atropelamentos nem colagens, cada músico estando consciente do seu lugar e percebendo que é apenas uma parte do todo. A música surge em camadas e tem uma dimensão orquestral, mas é de uma transparência que não se julgaria possível com uma formação de grande número. 

Proximidade e “soundscaping”

 

Álbum em que Rodrigues tem a companhia de Katsura Yamauchi e Carlos Santos, “Three Rushes” transporta-nos por sua vez para um plano de maior proximidade, sendo nesta edição de assinalar a poética atmosfera de tonalidades escuras, não estranha aos preceitos de algum “soundscaping” electrónico e electroacústico. Neste aspecto, “Lisboa” sai-se melhor com as contribuições de D’Incise, Cyril Bondi, Lisa Ullèn e Guilherme Rodrigues, talvez porque mergulha ainda mais no factor som, explorando a intersecção das polaridades de frequências e até os bordões – muito raramente encontramos abordagens “drone” neste tipo de investimentos – numa gestualidade solta e até sedutora.

“Seattle” é a pérola deste conjunto, chegando Ernesto Rodrigues e os restantes participantes (numa das peças Jonathan Sielaff, Vic Rawlins e Leif Sundstrom e na outra Sielaff de novo, Gust Burns e Manuel Mota) a desenlaces brilhantes. De toda a produção recente de Rodrigues será o título mais incaracterístico, até porque menos vinculado às premissas reducionistas. Pressente-se a influência da new music norte-americana ao longo de toda a audição, e quando chegamos ao tema em que Mota participa, com os seus típicos recursos “fingerpicking”, as coordenadas são claramente outras, incorporando procedimentos dos blues, da folk e do jazz. Ora, sabe-se como este guitarrista pode ser particularmente gestual nas suas execuções.

Outro disco entusiasmante é “All About Mimi”, e isso devido ao especial entrosamento entre Ernesto Rodrigues, Ricardo Guerreiro e Christian Wolfarth: poucas vezes, neste domínio da música improvisada, se obtém um tal nível de unicidade. Os sons mesclam-se uns nos outros, como se fossem produzidos pelo mesmo músico e não por três, mas fica evidente que os elementos aglutinadores são fornecidos pelo computador de Guerreiro. Está, aliás, aqui o melhor que o português tem colocado em CD, cabendo-lhe ainda uma boa parte do agrado causado por “Alba”. Neste trabalho com as presenças, também, de Louis Laurain e Guilherme Rodrigues ouvimos o que poucas vezes sucede nos domínios da informática musical: um “laptop” gestualista. Lá está esse precioso elemento de ambiguidade – o gesto sonoro “imagina” um gesto corporal, mas este é teatralizado. Na realidade, o “laptoper” fica imóvel diante do ecrã.

Curiosamente, ou nem tanto assim, é menos gestual o sintetizador de Mike Bullock em “Asteres Planetai”, registo em que Nuno Torres completa o trio. A qualidade bruitista da música repete-se, desmistificando a ideia de que a electrónica analógica cria mais grão, e mais uma vez aplicam-se perspectivas não literais de movimento. O que, de resto, favorece a envolvência onírica desta incursão. Mais seco é “Berlin”, edição em que Ernesto Rodrigues surge num quarteto acústico com Chris Heenan, Alexander Frangenheim e Ofer Bymel. A ausência de instrumentos eléctricos e electrónicos não reduz a dimensão noise – ela está lá, mas é humanizada, por assim dizer. O gestualismo é mais rude, mais naturalista. Há uma menor dramatização musical e por isso talvez uma menor preocupação relativamente à própria musicalidade.

Ernesto Rodrigues vem colocando importantes deixas para análise no que respeita à estética reducionista, à utilização do ruído e à gestualidade da música. Basta ouvir com atenção e tirar as ilações…

  • Late Summer

    Late Summer (Creative Sources)

    Rodrigues / Malfatti / Guerreiro

    Ernesto Rodrigues (viola); Radu Malfatti (trombone); Ricardo Guerreiro (computador)

  • Monochrome Bleu Sans Titre

    Monochrome Bleu Sans Titre (Creative Sources)

    IKB

    Ernesto Rodrigues (harpa, piano, objectos); Guilherme Rodrigues (violoncelo); Miguel Mira (contrabaixo); Rogério Silva (trompete); Eduardo Chagas (trombone); Bruno Parrinha (clarinetes soprano e alto); Nuno Torres (saxofone alto); Pedro Sousa (saxofones tenor e barítono); Abdul Moimême (guitarra eléctrica preparada); Carlos Santos, Ricardo Guerreiro (computadores); Monsieur Trinité, Nuno Morão, José Oliveira (percussão)

  • Three Rushes

    Three Rushes (Creative Sources)

    Rodrigues / Yamauchi / Santos

    Ernesto Rodrigues (harpa); Katsura Yamauchi (saxofone alto); Carlos Santos (computador)

  • Lisboa

    Lisboa (Creative Sources)

    Rodrigues / Rodrigues / Ullén / D’Incise / Bondi

    Ernesto Rodrigues (viola); Guilherme Rodrigues (violoncelo); Lisa Ullén (piano); D’Incise (computador, objectos); Cyril Bondi (bombo, objectos)

  • Seattle

    Seattle (Creative Sources)

    Rodrigues / Sielaff / Rawlings / Sundstrom / Burns / Mota

    Ernesto Rodrigues (viola); Jonathan Sielaff (clarinete baixo); Vic Rawlings (violoncelo, electrónica); Leif Sundstrom (electrónica); Gust Burns (piano); Manuel Mota (guitarra eléctrica)

  • All About Mimi

    All About Mimi (Creative Sources)

    Rodrigues / Guerreiro / Wolfarth

    Ernesto Rodrigues (viola); Ricardo Guerreiro (computador); Christian Wolfarth (címbales)

  • Alba

    Alba (Creative Sources)

    Rodrigues / Laurain / Rodrigues / Guerreiro

    Ernesto Rodrigues (viola); Louis Laurain (trompete); Guilherme Rodrigues (violoncelo); Ricardo Guerreiro (computador)

  • Asteres Planetai

    Asteres Planetai (Creative Sources)

    Rodrigues / Torres / Bullock

    Ernesto Rodrigues (viola); Nuno Torres (saxofone alto); Mike Bullock (sintetizador modular)

  • Berlin

    Berlin (Creative Sources)

    Rodrigues / Heenan / Frangenheim / Bymel

    Ernesto Rodrigues (viola); Chris Heenan (saxofone alto, clarinete contrabaixo); Alexander Frangenheim (contrabaixo); Ofer Bymel (percussão)