Passing Through the Wall

Zevious: “Passing Through the Wall” (Cuneiform)

Cuneiform

António Branco

Por muito que isso tire o sono aos puristas mais empedernidos, o facto é que desde meados do sexto decénio do século passado (ou até antes, se pensarmos, por exemplo, na “third stream”) que está em curso um processo de esbatimento de fronteiras entre o jazz e outros géneros musicais, o qual, naturalmente, tem conhecido, ao longo dos anos, altos e baixos em termos da real valia artística e da coerência das propostas apresentadas.

No vasto campo da hibridação estética, se podemos listar com facilidade um sem-fim de projetos ousados de diluição criativa entre abordagens de pensar e fazer música, também não será árduo fazer o mesmo com outros que, por razões diversas, jamais frutificaram. Esta tendência tem-se vindo a acentuar com particular incidência nos anos mais recentes, com o surgimento de inúmeros projetos que desafiam catalogações e subvertem limites, tantas vezes estéreis.

Uma das formações mais ativamente promotoras da dinamitação (quase no sentido literal, como se lerá adiante) de muros estéticos entre o jazz, o avant-rock e o metal é o “power trio” Zevious. Baseado em Brooklyn, Nova Iorque, o grupo é formado pelo guitarrista Mike Eber, o contrabaixista Johnny DeBlase e o baterista Jeff Eber. Contrariando de certo modo a norma neste tipo de formações, são Mike e Johnny que assumem, separadamente, as funções de composição.

Tendo iniciado atividade em 2006 como um trio de jazz – o disco inicial, autoproduzido, espelha ainda esta orientação – o grupo foi-se afastando progressivamente desta raiz inicial e caminhando no sentido da radicalização sonora, adicionando guitarras em distorção, trocando o contrabaixo pelo baixo elétrico, densificando texturas e poder rítmico, mas mantendo o lado cerebral e complexo das composições.

O segundo disco, “After the Air Raid” (Cuneiform, 2009), já mostra o grupo a culminar uma nova fase, durante a qual explorou estratégias composicionais que resultaram em temas estruturados e ritmicamente intensos. O grupo adverte e cumpre: com o novo “Passing Through the Wall” o ouvinte atravessa uma parede de som, sendo induzido nele um estado hipnótico através da repetição de motivos polirrítmicos, melodias não convencionais e constantes mudanças na estrutura das composições.

A música dos Zevious amalgama ordem e caos, sobrepondo camadas sónicas, criando texturas claustrofóbicas que alteram os próprios mecanismos de apreensão da informação sugerida. O disco abre com “Attend to Your Configuration”, que dá o mote para o que se irá escutar daí para a frente: guitarra em turbilhão e um baixo pulsante assentes num ritmo inclemente. À matriz noise pós-punk de “Was Solis” segue-se o “groove” ultradenso de “Pantocyclus” e as linhas serpenteantes de “White Minus Red”.

“A Crime of Separate Action” lembra algum rock progressivo do início de setentas (King Crimson, até mesmo Yes) com a sua divisão em secções de diferente atmosfera. “Entanglement” é fortemente consumidora de oxigénio, tornando o ar irrespirável. “Plying the Cold Trade” fecha o disco em tons sombrios.

“Passing Through the Wall” irá certamente agradar aos adeptos da improvisação contaminada pelos sons extremos. Emoções fortes que só a música urgente pode proporcionar.

  • Passing Through the Wall

    Passing Through the Wall (Cuneiform)

    Zevious

    Mike Eber (guitarra elétrica); Johnny DeBlase (baixo elétrico); Jeff Eber (bateria)