September

The Claudia Quintet: “September” (Cuneiform Records)

Cuneiform

António Branco

Desde o homónimo disco de estreia do Claudia Quintet que sabemos que o dia da semana favorito do seu líder – o baterista/percussionista e compositor John Hollenbeck – é a quinta feira. Pelo tributo que lhe presta no título do novo disco ficamos agora a saber que o mês da sua preferência é setembro. Desde 2001 que Hollenbeck aproveita essa altura do ano – um período de transição: do verão para o outono, de recomeço das aulas e das competições desportivas... – para se refugir num local recôndito, buscando isolamento e concentração criativa numa residência artística.

Somando-se a uma discografia que espelha a sua visão multidimensional da música, onde se combinam elementos estéticos de proveniência diversa, “September” – sétimo disco da formação nova iorquina – é marcado por diversas circunstâncias que marcam decisivamente o resultado final. Desde logo, o facto de o contrabaixista original do grupo, o superlativo Drew Gress, a contas com uma agenda muito preenchida, ser substituído no posto, em quatro das composições, por Chris Tordini, o que acontece frequentemente em concerto.

Também a participação do acordeonista Red Wierenga ajuda a alargar a paleta instrumental, encaixando-se particularmente bem nas complexas estratégias composicionais desenvolvidas por Hollenbeck. Mas talvez mais importante seja a decisão do compositor de criar música para o grupo que pudesse ser comunicada e interpretada sem necessidade da existência de uma pauta escrita. A estrutura de grande parte das peças foi transmitida oralmente, o que não deixa de surpreender face à coerência do que se escuta.

Permanecem patentes as características distintivas da escrita cerebral de Hollenbeck: excêntricos ostinatos, sedutores “grooves” e métricas não convencionais, em que assentam desafiantes interações instrumentais, em diálogo ou camadas.

Cada peça de “September” é designada por uma data seguida de um título. A primeira das datas (e última do alinhamento) é “12th: Coping Song”, sentido exercício terapêutico para acomodar as terríveis memórias que o dia 11 de setembro deixou – ainda bem vivas, diz o próprio, sempre que pensa, escreve ou lê uma data em setembro. Levou anos, mas Hollenbeck finalmente resolveu transformar em música os resíduos traumáticos daquele dia fatídico. O ambiente ganha negrume através do clarinete de Speed – que paira sobre um motivo repetitivo exposto por vibrafonista e acordeonista, sublinhado pelo trabalho de filigrana de Hollenbeck.

Outro dos momentos mais surpreendentes do disco é “29th: 1936 ´Me Warn You”, cuja música serpenteia em torno dos padrões vocais de Franklin Delano Roosevelt num histórico discurso proferido na Convenção do Partido Democrata havida em Syracuse, a 29 de setembro de 1936. A exploração da voz gravada não é, aliás, nova na obra de Hollenbeck: lembre-se que a peça que dá título do seu disco de estreia, “The Drum Major Instinct”, incorpora excertos de um discurso de Martin Luther King, devendo ser tocada na escuridão completa.

Se bem que de forma consideravelmente diferente, a voz humana volta a ser utilizada para adensar a atmosfera onírica de “17th: Loop Piece”. Mais contemplativa (com o baterista delicadíssimo no uso de escovas) é “22nd: Love Is Its Own Eternity”, inspirada numa frase do filósofo, escritor e educador indiano Jiddu Krishnamurti, que Hollenbeck encontrou escrita numa cabine telefónica no Blue Mountain Center (nas montanhas Adirondack, no norte do estado de Nova Iorque), um dos seus locais de retiro.

Em contraste sónico estão a sinuosa “18th: Lemons” – com a sua pulsação rock – e o dinamismo de “24th: Interval Dig”, com espaço para ótimas intervenções de Moran, Wierenga e, especialmente, Gress, que dá o mote.

Mais um excelente capítulo a acrescentar ao percurso de um dos mais relevantes compositores do jazz do nosso tempo e do mais emblemático dos seus grupos. Altamente recomendável, portanto.

  • September

    September (Cuneiform)

    The Claudia Quintet

    John Hollenbeck (bateria, percussão); Chris Speed (clarinete, saxofone tenor); Matt Moran (vibrafone); Drew Gress (contrabaixo) + Red Wierenga (acordeão); Chris Tordini (contrabaixo)