Três motivos para voltar à agulha

Discos de vinil

Três motivos para voltar à agulha

Signs of the Silhouette

texto Rui Eduardo Paes

Cada vez mais edições exclusivamente em formato LP vão vendo a luz do dia, e em Portugal como lá fora: foi o que fizeram Signs of the Silhouette, SSS-Q e Eitr, três projectos nacionais de muita qualidade que quiseram aproveitar o som quente e vivo da tecnologia analógica.

Ao contrário de quem considera que o presente regresso ao disco de vinil, cada vez mais comum, não passa de uma moda revivalista, e tão nostálgica quanto determinados consumos musicais, tenho para mim que este desfecho seria inevitável: a superioridade da tecnologia digital já foi desmistificada. O som analógico é, sem dúvida, melhor (ou seja, mais quente, mais vivo) e a arte de bem conceber uma capa ganha outro respeito – aliás, os meus olhos já deixaram de conseguir ler as fichas técnicas dos CDs, o que me tem levado a pôr obras de lado porque não percebo o que vem dentro do “digipack”, esse outro recurso diminutivo praticado pela indústria discográfica, a independente incluída.

Como não podia deixar de ser, também em Portugal há músicos que se aperceberam desta mesma evidência e foi, de resto, num intervalo de poucos meses que os três LPs que ultimamente mais têm estado em baixo da minha agulha foram lançados. Cada um deles à sua maneira entrando e saindo dos domínios a que normalmente vamos chamando de “jazz” ou de “música improvisada”, o que é sempre um sinal de inconformismo e criatividade, por mais que isso ainda escandalize os puristas de todas as tendências… 

Consequências insuspeitadas

Signs of the Silhouette 

Na sua terceira edição, “Land Garden”, os Signs of the Silhouette parecem-me finalmente ter encontrado o seu rumo. O que aqui vem é um rock de feição “jam” na linha de intersecção do psicadelismo com o noise. Mas não só: o facto de o duo de guitarra (Jorge Nuno) e bateria (João Paulo Entrezede) ser acompanhado por dois convidados com actividade como improvisadores, sendo estes o contrabaixista Hernâni Faustino (membro, por exemplo, do Red Trio) e a violoncelista sueca, mas radicada entre nós, Helena Espvall (colaboradora ocasional de David Maranha), leva o projecto a consequências insuspeitadas.

É certo que, por vezes, resulta daí uma sonoridade próxima do modelo Godspeed You: Black Emperor, mas quando a música sai dessa zona, e as duas cordas de arco ganham mais corpo na mistura, ficamos perante uma estranha música de câmara eléctrica mais próxima de uma “impro” assumidamente trans-idiomática, ora alimentada a “riffs”, ora, com frequência maior, evoluindo por voos picados de distorção e “feedback”.

O terceiro elemento dos Signs of the SIlhouette, o videasta Miguel Cravo, não podia surgir neste contexto com as imagens em movimento que integram os concertos da banda, mas o álbum inclui um livro com as suas intervenções artísticas e o grafismo é todo ele de sua autoria. O certo é que a edição ganha com isso, como se não bastasse o que sai das espiras do grosso vinil. 

Ritualismo como condição

SSS-Q 

“Songs From My Backyard”, do duo SSS-Q (Susana Santos Silva e Jorge Queijo) é bem diferente: o que ouvimos está entre um jazz pós-bop e pós-free e o tipo de experimentalismo primário buscado pela improvisação que procura ir até às raízes do som. A música cativa mais quando a trompetista e o baterista se aproximam das formas convencionais, e designadamente do fraseado típico do jazz, mas o certo é que a vertente ritualística, senão mesmo tribal, proporcionada pelas flautas e pela percussão surge como a condição para que esses desenlaces mais construídos, mais depurados, aconteçam.

Neste disco, os SSS-Q agem num constante processo de montagem e desmontagem de planos, sempre lembrando que na base de uma “composição” mais complexa estão factores elementares e tão velhos quanto a história da humanidade. O recurso tem outra vantagem “listener friendly”: os duetos com um instrumento de sopro e um par de baquetas podem ser bastante secos e agrestes, o que não se verifica neste caso. 

O elo que faltava

Eitr 

Mais distantes de conotações jazz, mas alinhando pela chamada EAI (“electro-acoustic improvisation”), estão os Eitr de Pedro Sousa e Pedro Lopes. Este outro duo ocupa o elo que parecia perdido entre o extinto grupo electrónico OTO, que ambos estes músicos integravam, e aquilo que têm feito em tempos mais recentes – Sousa com os saxofones em abordagens que vão do free “hardcore” de um Peter Brotzmann aos bruitismos minimalistas do “near-silence” e Lopes com os seus “gira-discos acústicos” (o “pickup” da máquina servindo para amplificar um trabalho que é, sobretudo, percussivo), de forma algo semelhante a Otomo Yoshihide na sua faceta como “turntablist”.

Em “Trees Have Cancer Too” preponderam os processamentos, via “sampling” e computador, das execuções saxofonísticas e dos pratos, reproduzindo e levando mais adiante o melhor que caracterizava os OTO. Com uma diferença substancial em relação a estes: a crueza da intriga e da própria moldagem sonora, denotando um nível superior de espontaneidade e um “deixar-se ir” muito orgânico que, infelizmente, vai faltando a muita música improvisada feita com dispositivos digitais.

Se estão decididos a voltar ao vinil, começarão bem com estas três escolhas…

  • Land Garden

    Land Garden (Signs of the Silhouette)

    Signs of the Silhouette feat. Hernâni Faustino & Helena Espvall

    Jorge Nuno (guitarra eléctrica); João Paulo Entrezede (bateria); Miguel Cravo (imagens, grafismo) + Hernâni Faustino (contrabaixo); Helena Espvall (violoncelo)

  • Songs From My Backyard

    Songs From My Backyard (Wasser Bassin)

    SSS-Q

    Susana Santos Silva (trompete, fliscórnio, flauta, percussão); Jorge Queijo (bateria, percussão, flauta, electrónica)

  • Trees Have Cancer Too

    Trees Have Cancer Too (Mazagran)

    Eitr

    Pedro Sousa (saxofones tenor e barítono, electrónica); Pedro Lopes (gira-discos, electrónica)