Thumbscrew

Mary Halvorson / Michael Formanek / Tomas Fujiwara: “Thumbscrew” (Cuneiform)

Cuneiform

António Branco

Se nos entregássemos a um exercício de mapeamento da teia de colaborações e projetos cruzados na cena nova iorquina do jazz mais aventuroso e da música improvisada facilmente chegaríamos à conclusão de que tal tarefa redundaria em algo de difícil perceção. Há as efémeras e as perenes, as que claudicam por choque de egos e outras que se revelam surpreendentes, com o resultado global a superar a soma aritmética das forças criativas em presença.

Thumbscrew é um trio de constituição recente que reúne um mestre em meio de carreira (o contrabaixista Michael Formanek) a duas personalidades de méritos já amplamente reconhecidos, mas ainda em processo ascensional (a guitarrista Mary Halvorson e o baterista Tomas Fujiwara). Três excelsos improvisadores de diferentes gerações e ângulos de abordagem, cujo novo projeto se distingue de muitos por apresentar música exclusivamente escrita para a formação e não como veículo para a reciclagem de composições resgatadas a outros contextos (premissa acordada desde o início).

A evidente empatia entre os três músicos assenta nos fortes elos que vêm de trás: Halvorson e Fujiwara começaram por tocar juntos no sexteto do cornetista Taylor Ho Bynum, passando depois pelo quarteto Reverse Blue (com o saxofonista/clarinetista Chris Speed e o contrabaixista Eivind Opsvik) e também pelo “ensemble” Living By Lanters, do baterista Mike Reed, inspirado na obra de Sun Ra (“New Myth/Old Science”, também na Cuneiform, é imperdível).

Guitarrista e baterista colaboraram pela primeira vez com Formanek em 2011, quando este tocou com o grupo de Bynum. Para explorar a química que sentiram, logo pensaram em tocar em trio. Formanek tocou com Fujiwara nos The Hook Up (também com Halvorson), enquanto Halvorson e Fujiwara integraram o Ensemble Kolossus, de Formanek.

A democraticidade do trio (sem um líder declarado) é atestada não só pelas contribuições para a música que se escuta, como também pela repartição equitativa dos créditos: cada músico é autor de três peças. Mais do que demonstrar as inequívocas capacidades como improvisadores, este disco – o primeiro da formação – centra-se nas composições, que carreiam as suas visões criativas.

A abrir, deparamo-nos com as harmonias angulosas e as métricas irrequietas de “Cheap Knock Off”, composição de Fujiwara que exibe muito do “modus operandi” do trio: a expansão de estruturas previamente fixadas (ouça-se, mais à frente, “Still… Doesn´t Swing”, com as suas súbitas alterações de rumo) e os jogos para ser livre dentro delas, num padrão gaussiano de intensidade.

De “Fluid Hills in Pink”, da autoria da guitarrista e aparentemente composta na sua integralidade, ressalta a capacidade de construção textural de Fujiwara e o faro melódico do contrabaixista, em notável interação a dois. Halvorson, que começa por tingir a peça de tons folk, deixa a sua marca indelével sem se colocar em bicos de pés, regressando à cena com os característicos arpejos, lançando o trio de novo na montanha russa.

“Buzzard´s Breath”, de Formanek, desenvolve-se em torno de notas carnudas de contrabaixo e evoca o jazz tradicional, embora por vezes não pareça. Notas ainda para a rugosidade de “Nothing Doing”, para a delicadeza rigorosa de “Falling Too Far”, húmus para uma superlativa intervenção de Formanek, e para o “tricot” elétrico urdido por Halvorson em “Line to Create Madness”.

Uma proposta que acrescenta pontos ao pecúlio de três músicos indispensáveis no quem é quem do jazz atual.

  • Thumbscrew

    Thumbscrew (Cuneiform)

    Mary Halvorson / Michael Formanek / Tomas Fujiwara

    Mary Halvorson (guitarra elétrica); Michael Formanek (contrabaixo); Tomas Fujiwara (bateria)