Concerts Bregenz München

Keith Jarrett: “Concerts Bregenz München” (ECM)

ECM

Gonçalo Falcão

Cada solo de Keith Jarrett é uma expedição à sua cabeça. Transparente como um diário de bordo, relata uma viagem pelo seu pensamento sonoro em que percebemos com nitidez a sua procura, e a sua descoberta, de frases musicais, bem como o trabalho de exploração e moldagem realizado para lhes extrair o tutano. Depois abandona-as e parte para a pesquisa seguinte.

Há quem alegue que ouvir um disco a solo de Jarrett é ouvir todos (e, nesta linha de pensamento, o obrigatório seria “Koln Concert”), mas na verdade não é assim. Jarrett senta-se ao piano com a sua “blank mind” e enrola-se no seu som, no momento e na acústica, para começar uma busca sofrida, ritualista, de novas melodias.

Neste processo há, de facto, formas recorrentes, um “modus operandi” jarrettiano que nos habituamos a reconhecer: repetição obstinada, criação de um baixo com a mão esquerda e desenvolvimento até ao limite da frase com a direita, além de mudanças repentinas de andamento. Mas também é justo reconhecer que não só estes processos são normalmente interessantes de ouvir -  nada soporíferos -, como em cada novo disco se descobrem formas novas e desbravares imprevistos.

É justo, ainda, verificar que, não obstante a sua fama e o encargo que aquele banco solitário de piano deve impor, Keith Jarrett não abdica do acaso, acolhendo-o com uma generosidade arriscada, sem truques ou fórmulas resolventes. Além disso, a ECM tem sido cuidadosa para não saturar o mercado com gravações repetitivas.

“Concerts Bregenz München” agrupa duas actuações na Áustria e na Alemanha divididas por três CDs. Gravados em 1981, estes dois concertos são brilhantes e merecem, sem dúvida, juntar-se à discografia solística de Jarrett (se bem que, no LP “Concerts”, editado em 1982, já pudéssemos ouvir a gravação de Bregenz).

Encontramo-lo com uma maior vontade de desenvolver os caminhos traçados em Colónia, somando aos mecanismos habituais já descritos novos elementos como a percussão dos pés, o seu patuá de interjeições e gemidos causado pelo transe em que entra, a manipulação directa das cordas do piano e outros. Neste período, as peças passam a ter elementos espinhosos, pertencentes a uma linguagem mais experimental, assim abandonando algum do conforto melódico que tinha criado.

Parece evidente que quem acompanha o trajecto de Jarrett encontrará nesta edição muito mais do que alimento para o seu espírito de fã: música de enorme qualidade, com factores que até agora foram pouco documentados. Para os menos iniciados no mundo do pianista, esta poderá ser uma magnífica porta de entrada.

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    Concerts Bregenz München (ECM)

    Keith Jarrett

    Keith Jarrett (piano)