Jacques Demiérre: “Breaking Stone” (Tzadik)

Rui Eduardo Paes

A estreia do pianista e compositor Jacques Demiérre na Tzadik de John Zorn faz-se com três obras que denotam bem a multiplicidade de referências do seu universo musical. Executadas por uma pianola (ou piano mecânico, se preferirem), as “Three Pieces for Player Piano” denotam o seu interesse pela new music norte-americana, e especialmente por Conlon Nancarrow, que com o suíço tinha em comum o gosto pelo ragtime e pelo stride (Demiérre decidiu-se pela carreira de músico depois de ouvir Champion Jack Dupree ao vivo). E no entanto surgem nas duas primeiras partes elementos latinos, e mais especificamente brasileiros, não por acaso sendo intituladas em Português, “Maquinação II” e “Para Bailar”.

Já em “Sumpatheia”, tocada pela violinista  Denitza Razakova e pelo guitarrista Jean-Christophe Ducret, o que ouvimos é a influência dos Alpes. O prato-forte do disco vem logo a seguir, com 40 minutos de duração. “Breaking Stone” tem interpretação do próprio Demiérre, em voz e piano. O trabalho vocal é mais determinado pelas pesquisas que o autor desenvolveu com Vincent Barras a partir da linguística de Saussure do que com a poesia fonética Dada, apesar de ser esta a primeira impressão auditiva. O pianismo é, por sua vez, claramente cageano, mais do que jazzístico. Contas feitas, temos aqui uma edição de primeira água, desafiando fronteiras de género e estilo.