Our Door

Mário Franco Trio: “Our Door” (TOAP/OJM)

TOAP / OJM

António Branco

O jazz alicerça-se, mais do que eventualmente qualquer outro domínio musical, na empatia, na comunicação, na partilha e em estratégias de ação-reação muitas vezes executadas em tempo real. Ainda que não tenha de ser necessariamente assim (por vezes, sabemo-lo, até se revela contraproducente), tal cumplicidade decorre, em muitas situações, de um processo partilhado de descoberta e definição de caminhos a percorrer.

Remonta aos anos de juventude a via comum destes três músicos, em suas casas ou no Hot Clube de Portugal, onde estudavam. A estreita ligação que une o contrabaixista Mário Franco, o guitarrista Sérgio Pelágio e o baterista André Sousa Machado foi primeiro vertida no Art Jazz Trio, depois cimentada em formações de outros músicos (Carlos Martins, Mário Laginha, Bernardo Sassetti, Andy Sheppard) e reacendida, de novo em trio, desde 2009, após um concerto no Hot Clube, após o qual não mais se afastaram.

O líder (que também é um reconhecido bailarino) tem exibido ao longo de três décadas de atividade, em diferentes contextos, as suas qualidades não só como executante mas igualmente como compositor. Avultam no seu percurso “This Life” (2006), disco de estreia em nome próprio – à frente do seu quinteto –, e o projeto Lux Perpetua, com o qual empreendeu um cruzamento criativo do jazz e da improvisação com a música sacra medieval e renascentista.

Sérgio Pelágio está – felizmente – de regresso ao jazz (pelo menos em disco), depois de no início dos anos noventa ter gravado “Idefix Live” (Miso Records). Nos últimos anos tem trabalhado sobretudo como compositor e produtor à frente da companhia Real Pelágio – juntamente com a coreógrafa e bailarina Sílvia Real –, dedicando-se à música para dança e teatro.

Sousa Machado coloca rigor e experiência nas múltiplas colaborações em que se envolve, assumindo-se como competente pilar rítmico. Em “Our Door”, ficam patentes os ganhos que resultam de um conhecimento quase telepático dos discursos de cada um, sem que isso signifique previsibilidade ou monotonia.

O trio revela saber tirar partido desse quadro relacional, potenciando as interações a níveis interessantes e logrando, na maior parte dos momentos, evitar os caminhos mais seguros. Os créditos do programa repartem-se equitativamente entre composições originais (quatro de Franco e uma de Pelágio) e rearmonizações – adaptadas ao contexto e à instrumentação – de peças de autores tão diversos como John Coltrane, John Abercrombie, Chris Cheek e Krzysztof Komeda.

Entre os melhores momentos está a plácida versão de “Paramour”, tema incluído originalmente em “Characters”, disco a solo de Abercrombie para a ECM, em 1978, e que espelha a longeva sintonia de contrabaixista e guitarrista em relação ao universo sonoro da etiqueta de Manfred Eicher. Também a interessante leitura de “Giant Steps”, um emblema “coltraneano”, merece relevo, a par da carga melancólica de “Ballad for Bernt”, peça de Komeda incluída na banda sonora da primeira longa metragem de Roman Polanski, “Knife in the Water”/ “A Faca na Água” (1962), com tempero à-la Metheny e um dos mais conseguidos solos do contrabaixista, a que acresce uma prestação de Sousa Machado tão discreta quanto eficaz a acentuar o lado emocional.

No plano dos originais destaque para a atmosfera luminosa da peça-título (incluindo a sua breve introdução), para a serenidade que emana de “Os Velhos” (da autoria do guitarrista) e para o perfume folk de “Backyard”, onde escutamos Franco em guitarra acústica. Um disco sóbrio e elegante que desvenda os seus recantos em sucessivas audições.

  • Our Door

    Our Door (TOAP / OJM)

    Mário Franco Trio

    Mário Franco (contrabaixo, guitarra); Sérgio Pelágio (guitarra elétrica, guitarra); André Sousa Machado (bateria)