Da clássica para o jazz

Violinos

Da clássica para o jazz

HatOLOGY

texto Rui Eduardo Paes

Muitos dos violinistas improvisadores têm em simultâneo, ou tiveram no passado, um investimento na música erudita. O certo é que o jazz e a "improv" beneficiaram com isso, como o testemunham seis discos agora editados (foto acima: Charlotte Hug)…

No eterno debate sobre o papel – e, segundo os mais puristas, até a legitimidade – do violino no jazz e na música improvisada, um argumento vem invariavelmente ao de cima: a maior parte dos violinistas nas áreas conotadas como “vanguardistas” vem da clássica (o que se deve, sobretudo, à própria caracterização histórica do cordofone, que obriga a uma formação em conformidade) e não são poucos os que continuam uma dedicação paralela à música dita erudita, na sua vertente contemporânea ou recuando nos séculos. É um facto, e disso nos apercebemos em seis discos recentemente colocados em circulação.

Essa particularidade tem um antecedente em Michel Samson (que não Sampson ou Michael, como foi sendo escrito pela imprensa americana ao longo de décadas), músico holandês que foi para os Estados Unidos estudar violino clássico e direcção de orquestra na década de 1960 e encontrou Albert Ayler no seu caminho. Pois foi agora reeditado, pela terceira vez, o registo ao vivo “Lorrach, Paris 1966”, em que encontramos Samson já totalmente integrado na música do saxofonista tenor que, no dizer do poeta Ted Joans, tocava como se alguém gritasse «foda-se» na Saint Patrick’s Cathedral.

A inclusão de um violino nos grupos de Ayler não foi imediatamente compreendida, ao contrário do que aconteceu quando Cecil Taylor chamou o também matemático Ramsey Ameen para a sua Unit – de alguma forma, pareceu mais lógico, dadas as evidências musicais no trabalho do pianista de um enorme fascínio pela música escrita europeia do século XX. E se Michel Samson não fez mais, no início da temporada em que acompanhou o autor de “Ghosts” (tema de que são incluídas duas versões neste álbum), do que acrescentar uma cor ao conjunto, o certo é que acabou por se evidenciar como uma peça importante nas perspectivas harmónicas do seu empregador. Aquelas que se revela(va)m para além dos compassos de marcha e das melopeias infantis.

A sua contribuição para este disco gravado em Lorrach, na Alemanha, e em Paris, na França, prenuncia mesmo o que faria de seguida, com sólida argumentação e enfiando-se por todos os ângulos, numa muito falada paragem em Berlim. Daí até ganhar fama como o “Paganini do free jazz” foi um passo, mas quem esperava que, depois da sua colaboração com Albert Ayler, Samson enveredasse por uma carreira de primeiro plano, tal não veio a acontecer. Hoje, dedica-se ao comércio de violinos e arcos, à pintura e a essa outra paixão que descobriu no seu trajecto hedonista: a gastronomia. Seja como for, estabeleceu um padrão e deixou herdeiros. 

Virado do avesso

Nigel Coombes 

Um deles é Nigel Coombes, figura da segunda geração de improvisadores britânicos que pela altura destas gravações (1979) mais parecia um guitarrista rock, com o seu cabelo afro e indumentária “freak”. Um vinil da Bead Records publicado em 1980 teve agora uma reedição em CD pela Emanem. Em “White String’s Attached” encontramo-lo com o pianista e manipulador de objectos Steve Beresford e a solo. Tal como Samson, Coombes tem uma atitude “low-profile”, mas continua activo e com uma abordagem que recapitula o património violinístico para logo o virar do avesso.

Nas divertidas “liner notes” que escreveu para o CD, Nigel Coombes refere o desconforto que Beethoven tinha com o duo violino/piano e que o terá levado a desistir da fórmula à décima sonata. Diz ele que é por causa disso que este disco soa como se os dois instrumentos se odiassem mutuamente. Não é bem assim: momentos há em que a acesa luta que mantêm dá lugar a uma relação quase telepática, apesar dos súbitos saltos do pós-serialismo para o “vaudeville” e daí para o disparate, com o claro propósito de perverter e desestabilizar. Trata-se de um curioso encontro, reunindo um trânsfuga do sinfonismo com um especialista (Beresford escreve para a revista Wire) nas músicas tradicionais e étnicas do planeta.

Quando se refere o violino na improvisação do Reino Unido, o primeiro nome que vem à baila é, no entanto, o de Philipp Wachsmann. E ei-lo que surge em “South on the Northern”, álbum duplo do Iskra 1903 com peças registadas em cassete nos anos de 1988 e 89 que Martin Davidson, o patrão da Emanem, salvou do olvido. A edição é importante, pois documenta um período do trio fronteado pelo entretanto falecido trombonista Paul Rutherford e completado pelo contrabaixo de Barry Guy de que nada havia em suporte magnético. Bem entendido, esta é a segunda versão do projecto: Wachsmann substituíra Derek Bailey, homem de feitio difícil que saiu por não querer lidar com os excessos alcoólicos de Rutherford.

A música da banda mudou substancialmente com a troca, ganhando uma sonoridade mais semelhante à da composição “de fraque”. Mas está longe de repetir essa pomposidade burguesa – note-se que Iskra (“Faísca” em Português) era o nome do jornal que Lenine dirigia antes da revolução bolchevique e essa carga política estava na altura (e está ainda, cobrindo o espectro da extrema-esquerda) bem presente na música improvisada das ilhas de Sua Majestade. Aliás, o que aqui vem foi tocado em “pubs” de Londres, ou seja, num tipo de espaço que não podia ser mais popular.

Antigo aluno de Nadia Boulanger, Wachsmann começara por se interessar pela escola indeterminista de Nova Iorque e pela interpretação de partituras gráficas ou em prosa, à maneira do Fluxus, e o seu mundo musical era referenciado em Luciano Berio, Edgar Varèse e Charles Ives. Foi essa a bagagem que trouxe para a improvisação e tal facto pressente-se a cada instante. O particular entrosamento que estabelece com um trombone moldado nas formas do jazz como o de Paul Rutherford parece-nos ainda mais brilhante tendo isso em conta. 

Reinvenção para o futuro

Vilde Sandve Alnaes 

Destes três títulos históricos passemos para outros três de gestação nos dias de hoje. “Paragone d’Archi” junta o violinista italiano Stefano Pastor à violetista e vocalista suíça Charlotte Hug num magnífico fresco que mostra qual é o “estado da arte” actual no que respeita às cordas de arco. O mote é a arquitectura, mas esta obra que atravessa obliquamente os territórios da chamada “nova música” e do jazz coloca em evidência outra coisa: toda a evolução das ligações entre violino e viola (na verdade um violino alto) e sua reinvenção para o futuro.

O disco é tão importante quanto isso, encerrando uma música ora luminosa, ora sombria, mas com uma incidência na matéria do som que mais poderíamos apontá-lo como um produto da ECM do que da editora de Leo Feigin. O recurso a técnicas extensivas, muitas delas introduzidas pelos próprios, não dilui em efeitos de “bricolage” a aura dir-se-ia que renascentista destes diálogos intimistas.

Pastor tem alma lírica, o que de resto vem a par com o seu outro mister, a poesia. Se o ouvimos a trabalhar as propriedades acústicas da madeira, é também capaz de explorar a estridência metálica das cordas. Funciona concentricamente, enquanto Hug o faz para fora. Esta encadeia-se com o espaço, projecta-se: a sua produção sonora não se faz apenas na viola, continua com a colocação das vibrações no ar.

Ele integrou orquestras e formações de câmara e, quando decidiu experimentar o jazz, tentou igualmente o chamado “art-rock”. Ela é o protótipo do músico exploratório, investigando sempre novas possibilidades, e se não tem um passado propriamente clássico, nela vivem as coordenadas da “grande música”. O certo é que, se não há composições, é patente que existem estruturas, ou pelo menos linhas melódicas condutoras, nas peças que se vão sucedendo no seu álbum a dois. 

Curiosamente, é da ECM uma edição bem mais “suja” no que concerne à aplicação de técnicas e linguagens alternativas às existentes. “Makrofauna” é o primeiro resultado em disco da parelha Vilde&Inga («sem espaços», pedem elas, porque o que fazem segue princípios colectivistas), constituída por Vilde Sandve Alnaes em violino e Inga Margrete Aas no contrabaixo, ambas norueguesas a viver em Israel e ambas membros do camerístico Ensemble Allegria . Se, à semelhança de Stefano Pastor e Charlotte Hug, também lhes interessam os jogos de timbres e harmónicos, a via que escolheram é a da música textural. Abstracta em alto grau e radical no entendimento do improviso e da pesquisa sonora. Por vezes é mesmo difícil de ouvir, tão longe está dos conceitos instalados de beleza.

 

Escrita e espontaneidade

Ole-Henrik Moe

Era de esperar de um outro norueguês, Ole-Henrik Moe, um ainda maior extremismo, em linha com as suas complexas composições em nome próprio, mas aquilo que lhe ouvimos enquanto parte integrante do grupo escandinavo (porque incluindo elementos suecos) Honest John é tão pacificamente aceite como jazz quanto o espólio de Michel Samson com Albert Ayler. “Canarie” concilia escrita e espontaneidade em temas tão cerebrais quanto swingados. A inspiração num Salvatore Sciarrino está lá, mas equilibrando-se com alusões brasileiras e, por estranho que pareça, com o entendimento do free jazz que vem marcando a cena da Holanda.

Discípulo de nem menos do que Xenakis e como este detentor de vários “canudos” (fez cursos superiores em biofísica e ciência cognitiva), as incursões de Moe pelo jazz são simultâneas às que tem feito pela electroacústica experimental com Deathprod, elemento dos inclassificáveis Supersilent, pelo neo-psicadelismo com a banda neo-progressiva Motorpsycho e pela música erudita contemporânea com o Arditti String Quartet. Se a crítica já comentou de um seu disco que o que se ouvia era «o pobre de um violino a ser torturado», neste contexto não há particulares situações de violência.

Em suma: sim, muitos dos violinistas do avant-jazz e da música improvisada são ou foram violinistas clássicos. E depois, qual é o problema? A realidade é que estas tendências têm beneficiado com isso.

  • Lorrach, Paris 1966

    Lorrach, Paris 1966 (HatOLOGY)

    Albert Ayler

    Albert Ayler (saxofone tenor); Don Ayler (trompete); Michel Samson (violino); William Folwell (contrabaixo); Beaver Harris (bateria)

  • White String’s Attached

    White String’s Attached (Emanem)

    Nigel Coombes / Steve Beresford

    Nigel Coombes (violino); Steve Beresford (piano vertical, piano de brinquedo vertical, apitos, percussão)

  • South on the Northern

    South on the Northern (Emanem)

    Iskra 1903

    Paul Rutherford (trombone); Philipp Wachsmann (violino, electrónica); Barry Guy (contrabaixo, electrónica)

  • Paragone d’Archi

    Paragone d’Archi (Leo Records)

    Stefano Pastor / Charlotte Hug

    Stefano Pastor (violino); Charlotte Hug (viola, voz)

  • Makrofauna

    Makrofauna (ECM)

    Vilde&Inga

    Vilde Sandve Alnaes (violino); Inga Margrete Aas (contrabaixo)

  • Canarie

    Canarie (Rudi Records)

    Honest John

    Ole-Henrik Moe (violino); Klaus Ellerhusen Holm (saxofone alto, clarinete); Kim Johannesen (guitarra eléctrica, banjo); Ola Hoyer (contrabaixo); Erik Nylander (bateria)