Um enorme passo adiante

Rodrigo Amado Motion Trio & Peter Evans

Um enorme passo adiante

NoBusiness Records

texto Rui Eduardo Paes

O grupo com maior rodagem do saxofonista de Lisboa tem dois novos, e notáveis, discos na lituana NoBusiness. Ambos gravados em Lisboa, em estúdio e em concerto, e ambos com um dos mais importantes trompetistas da actualidade como convidado.

A publicação simultânea, com o mesmo projecto e grupo, de um CD e de um LP vai-se tornando habitual, tal como sucedia no período de transição do vinil para o suporte digital. No momento em que tanto, e tão exageradamente, se fala do fim do disco, a verdade é que as rodelas pretas estão de regresso, e tudo indica que também a cassete está a ser revalorizada. Por mim, que nestas coisas sou antiquado, ainda bem: prefiro de longe manusear um objecto a ouvir música na Internet, no iPhone ou num leitor de MP3.

O curioso é que, muitas das vezes, o que vem no CD e no LP é diferente. Ou um inclui gravações de estúdio e o outro integra registos ao vivo, ou parte-se a mesma sessão ou várias sessões nos dois formatos. O comprador adquire os dois álbuns, acreditando que são complementares ou que lhe dão uma mais fidedigna perspectiva do todo, ou, se o dinheiro não chega para tanto, opta por uma das edições. Ora, acontece que o encontro do Rodrigo Amado ((foto acima, na objectiva de Vera Marmelo) Motion Trio com um dos maiores trompetistas da actualidade, Peter Evans, no ano que passou é um de vários casos da primeira tendência: “The Freedom Principle” (CD) contém o que o quarteto tocou no Namouche Studios de Joaquim Monte e “Live in Lisbon” (LP) documenta um concerto no Teatro Maria Matos. Encontram neste "link" um vídeo dessa actuação: http://vimeo.com/70613203  

Um guia habitual do consumidor de jazz gravado é a noção de que a música captada ao vivo é mais impactante e mais verdadeira. Regra geral, é essa a realidade, mas em se tratando de improvisação são frequentes as excepções. Aqueles que entendem o jazz como uma “fire music” procuram levar para o estúdio a mesma atitude que têm numa performance com público a assistir, e é isso o que se passa aqui. “Live in Lisbon” não é mais quente, mais ou mais incisivo, do que “The Freedom Principle”. Ou é, mas de uma forma extremamente subtil – neste tipo de música, as reacções da audiência, e até a sua simples presença, traduzem-se no que acontece no palco.

Seja como for, e mesmo tendo em conta que os quatro músicos terão entrado no Namouche com a mesma abertura à espontaneidade com que foram ao Maria Matos, o certo é que “The Freedom Principle” parece mais construído. Julgo que não houve intenção para que assim resultasse, e que o que nele ouvimos é tão, ou tão pouco, estruturado quanto o que está em “Live in Lisbon”, mas acabou por ficar com essa configuração. E eu, que me tenho como um acérrimo defensor da ideia de que a música improvisada é tão performativa quanto um espectáculo de dança, de teatro ou da performance-arte propriamente dita, até prefiro desse modo. Gosto quando os sons “colam”, quando há uma lógica, uma forma, um acabamento. E quando estes são improvisados, melhor me sabe – para todos os efeitos, a improvisação não é o contrário da composição, mas uma outra forma de compor. 

“Out” e “off”

 

O que nos conduz a outro factor que estes dois álbuns equacionam. Neles deparamo-nos com uma diferença no que respeita à colaboração do Motion Trio com músicos convidados. Esta parceria com Peter Evans distingue-se, formalmente e em termos de conteúdo, das que existiram com Jeb Bishop, traduzidas também em dois discos, e com Steve Swell, e curiosamente faz lembrar o que o grupo de Rodrigo Amado era antes de iniciar tais partilhas. Nesses contextos, habituámo-nos a ouvir Amado, Miguel Mira e Gabriel Ferrandini a tocar um jazz integralmente improvisado que cada vez mais expunha as suas raízes no bop e as fórmulas transicionais do hard bop com o free, quando o posicionamento que tinham no início os colocava com um pé no jazz e o outro numa livre-improvisação muito mais abstracta e idiomaticamente indefinível.

Em “The Freedom Principle” e “Live in Lisbon” volta a ser assim e nesse aspecto dá um passo enorme adiante. É certo que o líder saxofonista surge nestes temas com o seu já típico fraseado melódico e uma linguagem especificamente jazzística, mas quando as situações “ardem” sai desse enquadramento e move-se com uma surpreendente liberdade criativa. Interessante é verificar que isso não se concretiza apenas como resposta a um Evans habitualmente menos inserido em molduras – o que estes lançamentos têm de mais “out” e “off” surge muitas vezes por indução do próprio Motion Trio e é o homem do trompete que traz as situações para dentro, por exemplo com a introdução de citações – ora estilísticas, ora literais  – da história do jazz.

Rodrigo Amado continua a confirmar os motivos que fazem dele  um dos mais importantes músicos da cena nacional. Já isso tinha acontecido este ano com “Wire Quartet”, na companhia de Manuel Mota, Hernâni Faustino e o mesmo Gabriel Ferrandini que aqui reencontramos, o que é um sinal de constância na qualidade. Mira e Ferrandini mantêm o seu estatuto como a mais motórica das secções rítmicas em actividade e quanto a Peter Evans, não está menos bem do que nos seus projectos pessoais e no contexto dos Mostly Other People Do the Killing, banda com a qual há até alguns paralelismos, talvez porque o instrumentário é o mesmo.

Não vai o ano ainda em metade e já estão aqui dois candidatos aos melhores de 2014…

  • The Freedom Principle

    The Freedom Principle (NoBusiness Records)

    Rodrigo Amado Motion Trio & Peter Evans

    Rodrigo Amado (saxofone tenor); Peter Evans (trompete); Miguel Mira (violoncelo); Gabriel Ferrandini (bateria)

  • Live in Lisbon

    Live in Lisbon (NoBusiness Records)

    Rodrigo Amado Motion Trio & Peter Evans

    Rodrigo Amado (saxofone tenor); Peter Evans (trompete); Miguel Mira (violoncelo); Gabriel Ferrandini (bateria)