João Mortágua: “Janela” (Carimbo Porta-Jazz)

Rui Eduardo Paes

Deveríamos comemorar todas as vezes que o jazz português sai daquele espartilho uniformizado em que voluntariamente se vai colocando. A publicação de “Janela” é uma dessas ocasiões. Está certo que João Mortágua parece ainda indeciso quanto a uma fórmula a abraçar, pois ao longo deste disco encontramos várias e não propriamente coincidentes ou complementares. Também é verdade que apetece saltar para a faixa seguinte sempre que o jovem saxofonista se põe a cantar. Ainda assim, os argumentos a favor deste álbum são de peso e compensam as hesitações estéticas e a falta de voz.

As composições conseguem ser elegantes sem resvalarem para o pretensiosismo (um dos problemas do jazz nacional), com o grau de funcionalidade que é exigível quando se trata de jazz e a escrita deve servir a improvisação. Algumas das ideias rítmicas, melódicas e harmónicas que vamos ouvindo são, até, particularmente felizes, embora não haja propriamente surpresas: temos aqui um “mix” de referências e o único aspecto intrigante nisso é que uma das principais vem de um grupo rock, o progressivo e saltitante Gentle Giant. O sax alto de Mortágua ouve-se com o maior dos prazeres. Tem um sopro próprio e uma elasticidade que vai de Lee Konitz a John Zorn, o que eu antes não julgava possível. O trabalho de guitarra de Miguel Moreira é excelente – e é excelente em todas as 14 faixas, sem nunca desiludir. Para desfazer quaisquer dúvidas reminiscentes, a acção combinada do baixista José Carlos Barbosa e do baterista José Marrucho mantém tudo o mais a pulsar com uma solidez inebriante. O que mais poderíamos desejar de uma estreia?