Solo Flutes

Mark Alban Lotz: “Solo Flutes” (LopLop)

LopLop

António Branco

Mark Alban Lotz é um mestre flautista nascido na Alemanha, mas que se tem vindo a distinguir no seio do efervescente panorama holandês da música improvisada. O facto de ter vivido temporadas na Tailândia e no Uganda parece ter contribuído de forma decisiva para uma abordagem estética muito pessoal à exploração da família das flautas, para a qual confluem elementos do jazz, da livre improvisação e da música erudita contemporânea, convocando também para este caldeirão as tradições musicais de diferentes recantos do planeta.

Lotz tem deixado expresso um especial interesse no desenvolvimento de projetos “intermédia”, articulando música com vídeo, artes plásticas, teatro e dança. Já colaborou com gente tão diversa como Han Bennink, Don Byron, Chris Potter e Jason Robinson. Apesar de se apresentar em recitais a solo desde o início do seu percurso e de incluir amiúde gravações em formatos reduzidos nos seus álbuns, (“So(u)loflotz”, espécie de declaração de intenções, está logo na estreia), este é, 16 CDs depois, o seu primeiro disco completo no solitário contexto.

Algumas das composições incluídas em “Solo Flutes” resultam de uma encomenda feita em 2013 pela Dutch Performing Arts Society, e foram concluídas durante uma jornada sabática em Berlim. As peças incluem secções improvisadas, em maior ou menor extensão, e com maior ou menor número de graus de liberdade, e também improvisações pré-conceptualizadas e arranjadas.

O músico tem o cuidado de explicar nas notas de capa que os registos foram efetuados dispensando o recurso a dispositivos eletrónicos, “overdubs” ou “loops”,de forma a preservar a organicidade do processo. Depois, em estúdio, foram sim adicionados algum “reverb” e “delay”, de forma parcimoniosa e que não compromete, antes potencia, a frescura pretendida.

Lotz revela-se um interessante arquiteto de paisagens sonoras de diferente natureza, fazendo um uso aprofundado de técnicas extensivas, incluindo multifónicos, respiração circular, sussurros, estalidos e harmónicos labiais. Em diversos momentos põe o instrumento a dialogar com a sua própria voz (atente-se na conversa alucinada entre Adão e Eva).

Ressaltam como particularmente curiosas as seis “Bass Flute Sequenzas”, durante as quais Lotz explora de forma não convencional o corpo da flauta baixo, produzindo sons tão estranhos quanto cativantes. Notas para a evocação de ambientes desérticos que encontramos em “As Sahra´Ash Sharqiyah”, a sinuosidade de “Dear Moth”, a sonoridade cavernosa da flauta contrabaixo em “PVC Mantra”, os padrões hipnóticos de “Major Circles” e a beleza tranquila que emana de “Whisper Alap”.

Em peças como “A Fine Winter” ruma a coordenadas mais próximas do formalismo da música erudita e noutras, como “For Rahsaan” – dedicatória ao grande Rahsaan Roland Kirk –, de territórios jazzísticos. Uma proposta que tem a força suficiente para nos obrigar a redescobrir o que Lotz fez para trás e que perdemos na voragem do tempo.

  • Solo Flutes

    Solo Flutes (LopLop)

    Mark Alban Lotz

    Mark Alban Lotz (flautas em dó, alto, baixo, contrabaixo PVC e preparada, voz)