Last Dance

Keith Jarrett / Charlie Haden: “Last Dance” (ECM)

ECM

Rui Eduardo Paes

Nunca o título de um disco foi tão verdadeiro: esta acabou mesmo por ser a “última dança” de Charlie Haden, falecido no passado dia 11 de Julho devido a complicações da síndrome pós-polio de que sofria. Mas não se trata de uma gravação recente, até porque o contrabaixista já não tinha maleabilidade de movimentos. Os registos que constituem “Last Dance” foram realizados nas mesmas sessões de gravação, no estúdio pessoal de Keith Jarrett, que resultaram na edição em 2010 de “Jasmine”. Aliás, duas das peças incluídas (“Where Can I Go Without You” e “Goodbye”) são “alternative takes” desse álbum.

A colaboração entre os dois músicos vinha muito de trás, se bem que há 30 anos não trabalhassem juntos. Haden participara no clássico “Life Between the Exit Signs”, de 1967, enquanto membro do Keith Jarrett Trio, e pertenceu, na década seguinte, ao extraordinário American Quartet do pianista. Essa velha cumplicidade pressente-se nesta colecção de “standards” românticos (“My Old Flame”, “My Ship”, “It Might as Well Be Spring”, “Everything Happens to Me”, “Everytime We Say Goodbye”) em que surgem igualmente versões de “Round Midnight” (Thelonious Monk) e “Dance of the Infidels” (Bud Powell).

A música é intimista e exploratória, toda ela baseada numa mútua e concentradíssima audição dos dois músicos e momentos tem que nos arrepiam a espinha – seja pelos desenlaces propriamente musicais como por saber que nunca mais poderemos ouvir algo de novo tocado por Charlie Haden. A não ser, claro, que este tenha deixado algumas gravações na gaveta. O som de Haden é sublime, tal como em “Jasmine”, e o que ouvimos, a cada instante, é aquilo que a música pedia. Até Jarrett, que em tempos passados – antes de a fibromialgia o obrigar a dosear a sua fisicalidade performativa – tinha a tendência para tocar notas demais, utiliza apenas os materiais indispensáveis às tramas.

Mais: numa altura em que a imagem pública de Keith Jarrett está enxovalhada, devido às suas por vezes patéticas atitudes de estrela, este duo com Haden torna-o mais simpático. É como se este o tivesse levado de volta a um tempo da sua vida em que a música importasse mais do que o ego. A improvisação, mesmo com temas do American Song Book, é – só pode ser – uma partilha, uma comunhão que não exclui a divergência, e aqui encontramos Jarrett realmente a conversar com um velho amigo.

  • Last Dance

    Last Dance (ECM)

    Keith Jarrett / Charlie Haden

    Keith Jarrett (piano); Charlie Haden (contrabaixo)