Geyser

Joel Silva: “Geyser” (Sintoma Records)

Sintoma Records

António Branco

Muitos milhões de anos antes de o Homem por cá ter assentado arraiais, já o planeta Terra fervilhava de sons. Primeiro, certamente, os ruídos tonitruantes de erupções vulcânicas e tempestades de proporções cataclísmicas. Depois os sons da natureza, da água nos diversos estados físicos, do vento, de animais e plantas: a geofonia e a biofonia a que alude o investigador Bernie Krause.

Desde tempos imemoriais que as paisagens sonoras inspiram os seres humanos, que sempre as tentaram reproduzir e controlar, de forma mais ou menos funcional. A atração por geografias inóspitas e respetivas paletas de sons, onde o silêncio – esse conceito ambíguo – é instrumento principal, parece ser decisiva para a abordagem temática desenvolvida por Joel Silva. O músico junta-se assim ao cada vez mais alargado conjunto de habituais “sidemen” que não descuram a atividade composicional e que se revelam autores interessantes.

Baterista de provas dadas, tem vindo a desenvolver intensa atividade ao longo dos últimos anos em diversos ambientes, nos quais teve o ensejo de trabalhar com nomes prestigiados do jazz, de dentro e fora das fronteiras nacionais. Foi acumulando material que em boa hora decidiu editar no seu disco de estreia em nome próprio, “Geyser”, na Sintoma (recorrendo ao regime de “crowdfunding”). Todas as peças são de sua autoria e exibem assinalável coerência, sinal de que existe um conceito central que lhes subjaz.

A escrita é sóbria, atenta ao detalhe e cultora da riqueza melódica. Para lhe dar corpo sonoro, Joel Silva convocou um quinteto (pontualmente acrescido de vocalista) que integra músicos de diferentes gerações e mundividências. Num processo evolutivo que se mapeia escutando as diversas gravações em que tem participado, Joel Silva é hoje um baterista versátil e capaz de se adaptar com igual à-vontade a diferentes contextos, sabendo ser transparente nas acentuações, mas também um gerador de intenso dinamismo rítmico.

João Paulo Esteves da Silva afigura-se-me como o pianista ideal para estas composições. Harmonicamente irrepreensível e exímio no desenvolvimento melódico, confere-lhes significativas doses de espaço e tempo. Na nutrida frente de trompetes estão João Moreira e o jovem Diogo Duque, este último a dar cada vez mais que falar. O contrabaixo é assegurado por António Quintino, que acaba também de se estrear em disco como líder, e a voz é a de Sofia Vitória.

A peça-título, cheia de contrastes, como que assume a função de coluna vertebral do programa. A alternância de episódios agitados com outros de acalmia traduz a atividade destas manifestações hidrogeológicas razoavelmente raras. O piano anguloso vai-se aquietando, a secção rítmica vibra para depois se acalmar.

Já “Degelo” assenta num motivo-base que vai sendo alvo de um processo de metamorfose sublinhado pelo trompete etéreo e pela íntima conexão que se estabelece entre contrabaixista e baterista (uma constante ao longo das diversas peças), como se fossem átomos de hidrogénio e oxigénio que estruturalmente se vão rearranjando.

Em “Terra Branca”, mais contemplativa, ressaltam o contrabaixo, com Quintino a surpreender na utilização do arco, acrescentando solenidade, e a percussão de filigrana. Igualmente merecedores de notas são o bop trepidante de “Vesihiisi Sihisi Hississä” e os amplos horizontes que se divisam em “This Is What I Can See From Here”.

A fechar, “Wake Up”, com a voz sussurrante (e o poema) de Sofia Vitória, ajuda-nos a relativizar o papel que nós, humanos, desempenhamos neste majestoso quadro natural. Mais do que conseguida, esta é uma estreia que justifica plenamente que passemos a olhar para Joel Silva na dupla condição de excelente baterista e de compositor de caráter.

  • Geyser

    Geyser (Sintoma Records)

    Joel Silva

    Joel Silva (bateria); João Moreira, Diogo Duque (trompetes); João Paulo Esteves da Silva (piano); António Quintino (contrabaixo); Sofia Vitória (voz)