Time Geography

Dominique Pifarely & Ensemble Dédales: “Time Geography” (Poros Éditions)

Poros Éditions

Rui Eduardo Paes

Há uma maneira francesa de fazer as coisas, já todos o sabemos. No violino do jazz surgiu uma linhagem à parte com capital em Paris, e Dominique Pifarely, o mesmo que tem tocado com o português Hugo Carvalhais e o galego Baldo Martínez, e que gravou um belíssimo, mas pouco conhecido, disco com Carlos “Zíngaro”, é uma das suas figuras presentes. Essa corrente de violinistas do Hexágono começou com Stephane Grappelli, passou por Jean-Luc Ponty e Didier Lockwood e tem em Théo Ceccaldi o seu mais jovem representante. Pois eis que Pifarely lançou este ano um dos seus mais importantes títulos de sempre, em circulação com o selo “Choc” da Jazz Magazine.

E como não podia deixar de ser, “Time Geography” apresenta música que só poderia ter sido germinada em França. É certo que as suas coordenadas são universais, e designadamente os cruzamentos a que o Dominique Pifarely compositor faz entre jazz, música de câmara e rock, mas o que aqui está tem o específico ADN da sua origem. Este é o universo jazz que também encontramos em Louis Sclavis, com quem, de resto, o músico longamente colaborou, e até os elementos clássicos e roqueiros são claramente franceses, de um lado detectando-se influências de Satie e dos impressionistas e, do outro, as de grupos “prog” como Magma e Gong.

Posso, inclusive, dizer que é muito gaulesa esta forma de conciliar o rigor da escrita e das estruturas com a liberdade e o “drive” das interpretações e das improvisações. Neste CD há alimento para o cérebro, mas o percurso até lá chegar faz-se pela pele. O corpo chega antes da mente a esta música tocada a nove – consigo, Pifarely tem o Ensemble Dédales, com destaque, neste, para o saxofonista barítono François Corneloup (que já gravou com o nosso Carlos Barretto) e para o pianista Julien Padovani. A importância do empreendimento foi desde logo detectada por quantos há muito ansiavam por algo assim: «um disco de elevação», «um disco de hoje para amanhã», escreveu de imediato a crítica em Francês. Nós, que queríamos um novo “King Kong” (Ponty), um novo “Napoli’s Walls” (Sclavis) ou um novo “Mekanik Destruktiw Kommandoh” (Magma) só podemos concordar.

“Time Geography” é daquele tipo de obras que não se entregam de imediato. É preciso ouvi-lo várias vezes para descobrir tudo o que contém. Cada audição traz uma descoberta, e este é um tipo de experiência que foi, infelizmente, desaparecendo. Há qualquer coisa de labiríntico nestes temas, e porque assim é também de enigmático. É como se as formas musicais que se vão enovelando nos escapem, tão estranhamente leves quanto densas. Quando julgamos discernir um factor em particular, já estamos uns passos atrás e isso leva-nos não a desistir, mas a perseguir a nossa própria curiosidade. A sensação é deste modo explicada por Dominique Pifarely: «A música como meio de exploração das nossas relações com o mundo só tem de labiríntico o caminho pessoal que traçamos. Mas o labirinto-prisão transformou-se num jogo e encontrar o seu caminho é um imperativo.»

Trata-se, portanto, de um jogo, e de um jogo continuamente armadilhado. Mas ouvir este álbum não é uma pista de obstáculos, tudo é muito subtil e não está propriamente nos motivos melódico-rítmicos que se vão sucedendo. É sobretudo no trabalho harmónico que os desafios perceptivos se encontram, e neste capítulo há muitíssimo para encontrar, mesmo quando parece que o ponto de partida se deslocou e nos apercebemos que o chão nos saiu de debaixo dos pés. Fascinante.

  • Time Geography

    Time Geography (Poros Éditions)

    Dominique Pifarely & Ensemble Dédales

    Dominique Pifarely (violino); Guillaume Roy (viola); Hélène Labarriéte (contrabaixo); Vincent Boisseau (clarinetes soprano e baixo); François Corneloup (saxofone barítono); Pascal Gachet (trompete, bugle); Christian Bopp (trombone); Julien Padovani (piano); Eric Groleau (bateria)