Gileno Santana: ”Metamorphosis” (Caligola Records)

Rui Eduardo Paes

Mais uma boa surpresa do Norte. Membro da Orquestra Jazz de Matosinhos, Gileno Santana é um trompetista brasileiro – por sinal, nascido na mais portuguesa cidade das terras de Santa Cruz, Salvador da Bahia – radicado em Portugal que gradualmente se tem dado a notar. Com “Metamorphosis”, CD de uma inteligente e saborosa fusão jazz-rock, chega, finalmente, ao primeiro plano – não mais será possível desconsiderá-lo depois de um feito como este. Com ele estão músicos locais muitíssimo competentes que o ajudam nessa tarefa, designadamente o guitarrista Miguel Moreira, o teclista Joaquim Rodrigues, o baixista José Carlos Barbosa e o baterista Mário Costa, habitual acompanhante de Hugo Carvalhais que mantém tudo a pulsar com os seus pratos e peles. Contribuem ainda Andrés Tarabbia em percussão, na maior parte dos temas, e, numa só faixa, Pedro Vidal com as suas “spoken words”.

A abertura faz-se no limiar do silêncio, com electrónica, e quando o trompete de Santana soa as conotações milesianas quase nos fariam suspeitar de que se trata de mais um discípulo do génio que esteve na origem de várias frentes históricas do jazz. Mas não: quando se chega a “I’m Not Miles” já as semelhanças com o tão copiado Davis estão totalmente dissipadas. Gileno Santana tem um sopro mais agreste e angular, além de um estilo indubitavelmente pessoal e inconformista. Entre “riffs” obsessivos, súbitas e inesperadas explosões sonoras e ambiências calmas e multicoloridas (Moreira e Rodrigues são essenciais para o efeito caleidoscópico desta música), o baiano do Porto passeia-se com uma atitude afirmativa, plena de ideias e de argumentos e muito livre. Temos aqui um dos discos nacionais do ano!