Marco Scarassatti: “Novelo Elétrico” (Creative Sources)

Rui Eduardo Paes

A música do brasileiro Marco Scarassatti desafia as habituais arrumações no campo da improvisação mais exploratória. Tem certas semelhanças com o concretismo de Pierre Schaeffer, com a diferença de que há, não manipulação de gravações, mas uma perspectiva instrumental, de execução performativa, e não dista muito do que podemos ouvir nas hostes reducionistas (e daí, talvez, esta edição na Creative Sources, um dos mais importantes selos da estética “near silence”), embora o que esteja neste “Novelo Elétrico” tenha muito mais a ver com o pioneiro Hugh Davies do que com um Radu Malfatti ou um Taku Sugimoto.

Não surpreende que assim seja, tendo em conta que o campinense transferido para Belo Horizonte não utiliza electrónica e nem sequer quaisquer exemplares da organologia tradicional. Os instrumentos musicais que ouvimos – na verdade, trata-se de esculturas audíveis – são todos de sua própria invenção, tal como, de resto, fazia Davies e a grande referência de Scarassatti, Walter Smetak. Têm nomes curiosos, como ovni, magnum chaos ou ikebana-flor (para já não falar no “flugelsax cretino” listado na ficha técnica), e os timbres correspondentes são ainda mais estranhos. O que daí resulta são peças abstractas mas de insondável beleza, peças oníricas, introspectivas e, por vezes, até cinematográficas (que não apenas em “Dream Work, Hommage – A Peter Tscherkassky’s Film”). Ora levam-nos, por simpatia, a escutar os batimentos do nosso próprio corpo, ora alertam-nos para o espaço em volta dos sons, o espaço dos sons, os sons do espaço. Numa palavra: sublime.