Da Hungria, com amor

BMC Records

Da Hungria, com amor

BMC Records

texto Rui Eduardo Paes

A editora do Budapest Music Center está a contrariar a velha dificuldade que o jazz húngaro e o do Leste em geral têm em ser conhecidos no resto do mundo. Os discos que a seguir se referem são da sua fornada de 2014, e recomendam-se.

Do jazz que se pratica na Hungria, e no Leste europeu em geral, sabemos muito pouco na parte ocidental do mundo. Alguns nomes referenciais nos vêm à ideia, como o de Attila Zoller ou o de Gábor Szabo, mas tudo o mais, ou quase, é-nos desconhecido. Pois a BMC Records, vindo as iniciais BMC de Budapest Music Center, está a desenvolver uma incansável actividade para divulgar a música e os músicos húngaros em especial, mas também os de países vizinhos com quem existem relações privilegiadas, sobretudo búlgaros e polacos. Incluídas estão as conexões com as cenas alemã, francesa e, como seria inevitável, norte-americana.

Essa actividade parece ter acelerado em 2014. São nove os discos editados pela BMC durante os últimos 11 meses, e pelo menos mais um sairá até ao final do ano. As abordagens ao jazz destes discos são bastante diversas, mas regra geral alinham por um “mainstream” que se quer actual, fresco e identificado com as realidades culturais da Hungria e das nações que estavam do lado de lá da Cortina de Ferro. Quando o posicionamento é mais “vanguardista”, por assim dizer, o que se evidencia é um saudável respeito pelas raízes… 

Intrigantes contrastes 

É esse o caso, precisamente, de István Grencsó (foto acima), que no corrente ano lançou dois álbuns pela BMC Records, um com o seu Open Collective (“Flat / Sikvidék”) e o outro em conjunto com Stevan Kovacs Tickmayer e Tamás Geroly (“Trio Kontraszt”). Em ambos intervém com os seus habituais saxofone tenor, clarinete baixo e flauta numa assumida adesão às premissas do free, se bem que estas constantemente interferidas por elementos estilísticos de outras tendências históricas do jazz. Os resultados são, de qualquer modo, distintos: o instrumentário mais convencional do primeiro disco influencia os desenlaces musicais, enquanto as sonoridades algo exóticas do harmonium ou da celeste, bem como a ausência de um baixo, soltam os conteúdos do outro.

Grencsó é um veterano do jazz criativo na Hungria, o equivalente, talvez, ao nosso Carlos “Zíngaro”. Estreou-se em 1979 com o Masina Jazz Group e depois tornou-se num colaborador regular de Gyorgy Szabados. O Open Collective surgiu na década de 1980 e tem sido o seu grupo mais duradouro. “Plays Monk”, de 1996, foi uma obra bastante esclarecedora quanto aos vínculos mantidos com o jazz de antes da “new thing”, mas se tal definiu a sua postura face à tradição, nem por isso este imaginativo soprador deixou de experimentar outras situações, como a world music tendencialmente marroquina do Gnawa Trio, o “beat” do grupo AMA ou o noise-rock dos Pozvakowski. Pelo caminho, colaborou com gente como Peter Brotzmann, Peter Kowald e Tobias Delius.

“Flat / Sikvidék” é um investimento cheio de sumo e de polpa, mas o certo é que a – ainda que competentíssima, com destaque para o pianista – secção rítmica de Máté Pozsár, Robert Benkó e Szulveszler Miklós parece constantemente prendê-lo à terra. Não há grandes riscos nem surpresas, o que também poderá ter a ver com a longevidade desta formação. Já a parceria com Tickmayer e Geroly dá-lhe asas para voar. O trio inspira-se nas concepções de Szabados e denota influências clássicas (importante é referir que Tickmayer foi aluno de Gyorgy Kurtag e que compõe para Gidon Kremer e o ensemble De Volharding), muito em particular de Bela Bartók e da sua peça “Contrasts”, por sinal dedicada a Benny Goodman – daí, de resto, o título “Trio Kontraszt”. A música é bastante intrigante, e mais ainda se tivermos em conta que antes os mesmos músicos interpretaram Albert Ayler. 

A familiaridade das fábulas

Michael Schiefel 

Grzegorz Karnas

Viktor Tóth

Miklós Lukács

Nestes tempos em que o canto jazz está em decadência, é com surpresa que se verifica ser o CD de um vocalista a grande pérola desta série de edições. E se o dito, Michael Schiefel, é um berlinense, o certo é que “Platypus Trio” não podia ser mais húngaro, e inclusive porque tem como pilar alguém como Miklós Lukács. Este é como que o grande herói da música da Hungria em pelo menos três frentes, a popular e tradicional, a erudita e a do jazz. É um universo muito próprio que aqui se revela: se há uma narrativa (num linguajar hermético, mas com um amoroso ornitorrinco como protagonista), as peças incluídas contrabalançam a temática com uma permanente aura de mistério.

Sem abastardar o rico património vocal masculino do jazz, este projecto consegue conciliar essa herança com factores que provêm, simultaneamente, da pop e do experimentalismo electroacústico e que se ligam de forma muito natural. Schiefel é um cantor versátil, com um percurso que passa pelo funk (JazzIndeed), pelo bigbandismo camerístico (Thaerichen Tentett), pela música balcânica (Batoru) e pelo jazz moderno (David Friedman), mas esta capacidade de sincretismo é invulgar. Há, decerto, elementos de estranheza, como os processamentos da voz de Schiefel e do violoncelo de Jorg Brinkmann ou os timbres entre o piano e a guitarra do cimbalão de Lukács, mas é com a familiaridade que jogam as composições. Digamos que com a familiaridade do sonho, dos contos de fadas, das fábulas.

Se esse é um factor que nos prende à audição, tem um lado adverso: está tudo demasiado arrumado e limpo, é tudo excessivamente certo. Não fora isso e este seria um trabalho absolutamente fora-de-série. Mas se é imperfeição humana, um pouco de grão ou matéria orgânica o que aqui faz falta, tem-na a rodos outro disco cantado da BMC, o de Grzegorz Karnas em trio com Miklós Lukács como convidado especial. A música de “Vanga” é cozinhada em sangue, suor e lágrimas, distando dos produtos plásticos que hoje em dia são vendidos como jazz vocal. E faz todo o sentido que assim seja: o cantor polaco baseia-se nas profecias e nas visões do místico invisual Baba Vanga, entretanto falecido.

A música de “Vanga” swinga como poucas de origem europeia, e fá-lo sem que cheire a mofo. É cortante quando precisa, e macia quando isso nos apetece. Mas também, o que esperar de um homem que andou pela estrada com o saxofonista Tomasz Szukalskii? No que à prestação de Lukácz respeita, é curioso ouvi-lo agora a cumprir escrupulosamente, com o seu instrumento da família das cítaras, as funções de um pianista de jazz. Assim como que um pianista excêntrico, em que cada nota, cada acorde deixa um rasto de cintilações, com uma verdade que o Fender Rhodes não tem devido ao artifício da electricidade. É de um mestre que se trata, e por isso Archie Shepp, Charles Lloyd, Steve Coleman e Chris Potter quiseram tocar com ele.

Pois eis que este Miklós Lukács “pianista” volta a surgir em mais um lançamento da BMC, desta vez integrado no Arura Trio de Viktor Tóth. “Szemed Kincse / The Present” será o menos interessante dos discos que contam, nesta leva, com a sua participação, mas tem argumentos que justificam uma escuta atenta. O saxofone alto de Tóth já se fez ouvir ao lado de William Parker e Hamid Drake, mas neste CD o seu lirismo ainda fica mais exponenciado pelo contexto de câmara da música oferecida – o Arura tem como sustentáculo rítmico o contrabaixo de Gyorgy Órban, dispensando bateria. Para este ouvidor, há demasiado açúcar nestes temas e Lukács, infelizmente, não faz a diferença. 

Perigosamente banal

Modern Art Orchestra 

Kristóf Bacsó

Mihály Borbély

A Modern Art Orchestra é a grande “big band” de jazz da Hungria, e só não a podemos comparar com a portuguesa Orquestra Jazz de Matosinhos porque o seu repertório a leva para os domínios da música contemporânea e também da comercial. Como a formação do Porto, de qualquer modo, também com convidados de fora, a exemplo de Dave Liebman, Wallace Roney e Kurt Elling. Este ano, curiosamente, a orquestra foi escolhida por Ennio Morricone para levar a sua música cinematográfica em digressão mundial. Sob a habitual direcção do trompetista Kornél Fekete-Kovács, no caso de “Circular” toca as partituras de um dos seus elementos, Kristóf Bacsó, antigo aluno de Joe Lovano e George Garzone.

A obra tem passagens que denunciam os interesses clássicos de Bacsó e outras em que emergem influências do rock, mas nem umas nem outras compensam um orquestralismo jazz conformista e estereotipado. Ideias boas acabam por soçobrar na banalidade e no já-ouvido. Precisamente as características que diminuem outra edição da BMC Records, “Hungarian Jazz Rhapsody”, do Mihály Borbély Quartet. O recheio do CD é melhor do que o infeliz título deixa antever, mas quem estiver à espera de um refrescante cruzamento do jazz com a música de raiz da Hungria vai encontrar um jazz bem feito, sem dúvida, mas de pendor perigosamente próximo do turístico.

Borbély é uma das mais importantes figuras do jazz húngaro, mas a fórmula que aqui explora com Dániel Szabó, Balázs Horváth e István Baló  – um balanceamento afro-americano com uma harmonia europeia e romani – está francamente cristalizada. Ou seja, este não é propriamente o Mihály Borbély que emparceirou com Paul Bley, Joe Fonda, John Hollenbeck, Michael Jefry Stevens e Larry Ochs. Ainda assim, e se a primeira faixa do disco, a que o designa, é uma versão de Attila Zoller que funciona como um pólo de reconhecimento para os ouvintes do Ocidente, tem mais adiante um contrapeso: “Polymodal Blues” pode convidar a que se bata o pé, mas está paredes-meias com o atonalismo. No alinhamento o saxofonista toca igualmente o tarogato, palheta de origem húngara, mas é pena que não utilize outros instrumentos folclóricos a que também se dedica, como o kaval, o dvojnice, a fujara, a bombarda e a zurna, que nos dariam uma mais certa percepção da Hungria real. 

Parcerias transnacionais

Béla Szakcsi Lakatos 

Gueorgui Kornazov

Mais atraentes do que um jazz húngaro para-estrangeiro-ouvir são as colaborações dos seus músicos com instrumentistas de outros países. Há dois exemplos nesta fornada. O primeiro é “Climate Change”, do pianista cigano Béla Szakcsi Lakatos com os americanos Tim Ries, Robert Hurst e Rudy Royston. Trata-se de um jazz “mainstream” com sangue na guelra que poderia muito bem ter saído do caldeirão nova-iorquino – tanto assim que, quando Lakatos quer soar mais à maneira do seu país, recorre a um compatriota como convidado, o violinista Lajos Kathy-Horváth.

É outro veterano que encontramos nesta edição. Já na década de 1960 que Lakatos dirigia os seus próprios grupos e de então para cá teve oportunidade de tocar com os maiorais do jazz e das músicas limítrofes, de Art Farmer ou Marvin “Smitty” Smith a, imagine-se, Frank Zappa. Não admira, aliás, que este teclista de sólida formação erudita tenha formado as primeiras bandas de fusão jazz-rock na Hungria, designadamente Rakfogó e Saturnus. Chick Corea é um seu confesso admirador. O mesmo Lakatos, acrescente-se, compôs a ópera rock “The Beast”, sobre a vida tornada lenda da Condessa Erzsébet Báthory, que matava as jovens camponesas das suas terras para lhes beber o sangue e assim se manter bela, e até Ries tem referências nessa área, sendo o líder do Rolling Stones Project. A verdade, porém, é que, se este jazz é bem esgalhado, já não contém qualquer substrato de novidade.

Bastante diferente é o que descobrimos em “The Budapest Concert”, do Horizons Quintet de Gueorgui Kornazov. Os amantes do jazz francês deverão reconhecer este nome do Henri Texier Strada Sextet. Pois o búlgaro tem como seu parceiro neste álbum outro membro daquela formação, e com desempenhos em destaque: o húngaro Manu Codjia. Ora, este guitarrista trabalha igualmente com Daniel Humair e é do quarteto deste que vem o gaulês Émile Parisien, o mesmo dos Nebulosa e dos Partícula de Hugo Carvalhais. Os outros contribuintes são Marc Buronfosse, que estudou com Texier, e o canadiano Karl Jannuska, que teve como patrões, por exemplo, Lee Konitz e Kenny Wheeler. Esta feliz combinação de músicos só poderia resultar em algo de explosivo.

Kornazov é um dos mais poderosos trombonistas da Europa, como bem o sabem a Vienna Art Orchestra e a Orchestre National de Jazz, pelas quais já passou. Embora colocando-se na linhagem de um Roswell Rudd, os multifónicos de Albert Mangelsdorff têm nele um dedicado continuador. Enquanto compositor caracteriza-se por escrever ora temas festivos e saltitantes, quase hinos, ora o seu exacto contrário, obscuros e paisagísticos. Sempre jogando com os contrastes entre linhas melódicas cativantes e improvisações muito livres e angulares. O interessante é que a música deste disco está longe de ser um francesismo – ressonâncias balcânicas atravessam-no do início ao fim, que não apenas na fascinante “Budapest Suite”.

Resta-nos esperar que alguma distribuidora traga estes discos para Portugal. Está aqui todo um manancial a descobrir, com urgência.

  • Flat / Síkvidék

    Flat / Síkvidék (BMC Records)

    Grencsó Open Collective

    István Grencsó (saxofone tenor, clarinete baixo, flauta); Máté Pozsár (piano); Róbert Benkó (contrabaixo); Szilveszler Miklós (bateria, percussão)

  • Trio Krontraszt

    Trio Krontraszt (BMC Records)

    Grencsó / Tickmayer / Geroly

    István Grencsó (saxofone tenor, clarinete baixo, flauta alto); Stevan Kovacs Tickmayer (piano, órgão, harmonium, celeste); Tamás Geroly (bateria, percussão, gardon)

  • Platypus Trio

    Platypus Trio (BMC Records)

    Michael Schiefel

    Michael Schiefel (voz, electrónica); Jorg Brinkmann (violoncelo, electrónica); Miklós Lukács (cimbalão)

  • Vanga

    Vanga (BMC Records)

    Grzegorz Karnas Trio feat. Miklós Lukács

    Grzegorz Karnas (voz); Michal Jaros (contrabaixo); Sebastian Frankiewicz (bateria) + Miklós Lukács (cimbalão)

  • Szemed Kincse / The Present

    Szemed Kincse / The Present (BMC Records)

    Viktor Tóth Arura Trio

    Viktor Tóth (saxofone alto); Mklós Lukács (cimbalão); Gyorgy Orbán (contrabaixo)

  • Circular

    Circular (BMC Records)

    Modern Art Orchestra (plays the music of Kristóf Bacsó)

    Kornél Fakete-Kovács (condução, trompete, fliscórnio); Kristóf Bacsó (composição, saxofones soprano e alto, flauta); Dávid Ulkei (saxofones soprano e alto, clarinete); János Avéd (saxofone tenor, flauta); Balázs Cserta (saxofone tenor, clarinete); Mihály Bajusznács (saxofone barítono, clarinete baixo); Adám Gráf, Zoltán Bacsa, Gábor Subicz, Balázs Bukovinszki (trompetes, fliscórnios); Gábor Bizják ou Zsolt Nagy (corne); Attila Korb, Gábor Barbinek (trombones), Miklós Csáthy (trombone baixo); Péter Kovács (tuba); Marton Fenyvesi ou Áron Komjáti (guitarra eléctrica); Gábor Cseke (piano); Márton Soós (contrabaixo); László Csízi (bateria); András Dés (percussão)

  • Hungarian Jazz Rhapsody

    Hungarian Jazz Rhapsody (BMC Records)

    Mihály Borbély Quartet

    Mihály Borbély (saxofones soprano e alto, tarogato); Dániel Szabó (piano); Balázs Horváth (contrabaixo); István Baló (bateria)

  • Climate Change

    Climate Change (BMC Records)

    Lakatos / Ries / Hurst / Royston

    Béla Szakcsi Lakatos (piano); Tim Ries (saxofone alto); Robert Hurst (contrabaixo); Rudy Royston (bateria) + Lajos Kathy-Horváth (violino)

  • The Budapest Concert

    The Budapest Concert (BMC Records)

    Gueorgui Kornazov Horizons Quintet

    Gueorgui Kornazov (trombone); Émile Parisien (saxofone soprano); Manu Codjia (guitarra eléctrica); Marc Buronfosse (contrabaixo); Karl Jannuska (bateria)