Mané Fernandes: “Bouncelab” (Carimbo Porta-Jazz)

Rui Eduardo Paes

Pouco importa que tomemos como referência, para ouvir este “Bouncelab”, a categorização que o guitarrista Mané Fernandes faz da sua música como “groove experimental”. Sem dúvida que o “groove” está lá e que há uma abordagem criativa, mas considerações sobre se há um “groove” experimental ou um experimentalismo “groovy” só nos levariam a afastarmo-nos do que mais interessa neste disco: a fruição de um jazz contemporâneo, inteligente e sem apriorismos ou proibições, indo buscar o que mais lhe serve: desde elementos históricos do jazz eléctrico (e não só: “Vicious Beliefs” é um bebop de estalo) a fórmulas, ou determinados aspectos apenas, de outros géneros de raiz negra como o reggae, o funk ou o drum ‘n’ bass.

Esta é uma música com alma. Mais: é uma música que ginga, desmentindo todos os que ainda defendem que gente branca não tem ritmo. Mas é também uma música elegante, e ocasiões há em que o sax alto de João Mortágua nos faz lembrar a sofisticação de um Paul Desmond. Nesse contexto, a guitarra nervosa de Fernandes leva-nos de imediato para outro lado. As bases mantidas por Gonçalo Moreira (piano, Fender Rhodes), Filipe Louro (contrabaixo) e Pedro Vasconcelos (bateria) têm tudo para fazer inveja a outras secções rítmicas – são eles quem começa por fazer a coisa vibrar. As funcionais (ora aqui está um compositor português de jazz que não usa enfeites presunçosos e desnecessários!) composições são do próprio Mané Fernandes e é este que faz os arranjos do único tema imputado a terceiros, “Cyclic Episode” de Sam Rivers. Pelo meio surge ainda um par de improvisações livres que só por si dariam suficiente substância a este CD. Boa malha, sim senhor.