Vicente / Marjamaki: “Opacity” (JACC Records)

Rui Eduardo Paes

Este foi um bom ano discográfico para o trompetista Luís Vicente. Depois de dois grandes discos com a sua participação, integrado nos grupos Clocks and Clouds e Fail Better!, eis mais um que merece ir directamente para as listas dos melhores álbuns de 2014. Se o seu duo com o electronicista finlandês, mas residente em Lisboa (na Lisboa nocturna mais exactamente, onde desenvolve actividade como produtor de música de dança), Jari Marjamaki era uma muito curiosa variante dos universos de Jon Hassell e Arve Henriksen, com esta edição cobre territórios mais latos e fá-lo com brilhantismo.

“Opacity” funciona como uma colecção de “sketches” em que a célula Vicente / Marjamaki cobre situações diversas coma mesma linguagem e o mesmo “modus operandi”, Marjamaki criando as bases (soberbos, os seus “samples” de percussão, tão importantes quanto as sínteses digitais e os processamentos) e Vicente navegando sobre as mesmas ou entrando por elas como um avião a atravessar um aglomerado de nuvens. Com eles têm as contribuições dos guitarristas Pedro Madaleno e Marcelo dos Reis, respectivamente nas faixas 1 e 2 (“Down South” e “Got That Zing”), e os violoncelistas Miguel Mira e Valentin Ceccaldi, o primeiro na faixa 3 (“Cristalino”), fazendo as vezes de um contrabaixo, e o músico francês em três peças, a 4, a 6 e a 7 (“Soft Spot”, “Pollock Was Right” e “Tablets of the Memory”). Apenas na 4, “Fractal”, temos o dueto tal como se deu a ouvir em “Alternate Translations”, de 2013. Cada tema é uma surpresa e a confirmação de que em Portugal se está a criar música incrível.