Lisboa String Trio: “Matéria” (Primetime)

Rui Eduardo Paes

O que significa a designação “jazz português”? Jazz feito em Portugal, com características que não têm necessariamente de passar pela sua autoctonia, mas aceitando-se bem que a contenha de uma forma subtil? Parece ser essa a aceitação comum, mas Carlos Barretto (contrabaixo, membro também do algo semelhante projecto Guitolão), José Peixoto (guitarra clássica tocada segundo os parâmetros do magrebino oud, ou seja, como um instrumento melódico e não harmónico) e Bernardo Couto (a tradicional guitarra portuguesa) propuseram-se ir mais longe com a formação do Lisboa String Trio – tocar um jazz que reflicta assumida e programaticamente a portugalidade cultural e genética dos músicos envolvidos. Uns dirão que já não é jazz – aliás, refira-se que, ao longo da sua carreira, Peixoto foi sempre olhado de lado tanto pelos apreciadores da música popular portuguesa, por ser “demasiado jazzístico”, e pelos do jazz, por soar excessivamente “étnico” – e outros que de nacional tem ainda pouco, pelo facto de os aspectos formais virem de outras realidades musicológicas.

No meio destas considerações, o que verdadeiramente interessa («Jazz português? Se fado fosse…», lê-se no texto que acompanha a edição) é a própria música, e a que está contida em “Matéria” é feita por autênticos mestres nos seus respectivos instrumentos e na escrita musical. Os temas são da autoria de Peixoto e Barretto e exploram o formato do trio de cordas no que este tem de mais camerístico. Significa isso que se trata de música iminentemente colectiva, com cada intervenção a completar-se com as demais para chegar aos desenlaces pretendidos. Há mesmo por estes temas um carácter de filigrana, tendo igual importância o todo das peças criadas e cada um dos fios que a compõem. A música como mais uma das artes de joalharia.