Ensemble Super Moderne: “Ensemble Super Moderne” (Carimbo Porta-Jazz)

Rui Eduardo Paes

Mais um produto da nebulosa Porta-Jazz, o Ensemble Super Moderne parte de uma premissa perigosa, «não ter nenhum som mas vários». Ou seja, o «conceito de uma linha estética como elemento unificador do projecto desaparece, dando lugar a que o ESM se identifique precisamente por não tomar partido de nenhuma música em especial». Poderíamos contra-argumentar que não ter uma linha estética é já uma linha estética, mas o facto é que não é isso o que se passa neste disco de apresentação do novo projecto do Porto. Se há factores que mudam de peça para peça, ou não fossem quatro os compositores (José Pedro Coelho, Carlos Azevedo, Paulo Perfeito e Rui Teixeira), o certo é que o octeto (além dos referidos, participam ainda José Soares, Eurico Costa, Miguel Ângelo e Mário Costa) tem uma linha condutora: um jazz “supermoderno”, de facto, no sentido daquilo a que a filosofia contemporânea vai chamando de meta-moderno ou pseudo-moderno. Um jazz que recupera diferentes formatos do seu património estilístico, com especial evidência na faixa “Modern”, e absorve elementos do rock e da música erudita do século XX e deste que iniciámos há 15 anos.

De resto, há nestas combinações uma influência que podemos referir como inevitável quando o propósito é juntar “vários sons” e fazer música com um ensemble alargado de instrumentos: a de Frank Zappa. O visionário do bigode e da mosca é como que o fantasma que habita nos temas “La Capricciosa” e “Morpheus”, mas são diversos os momentos do álbum em que se pressente a sua assombração. Seja como for, a música é fiel ao princípio de “não tomar partido” e esse factor zappiano nunca chega a ser determinante. Por exemplo, Charles Mingus, Gil Evans, Carla Bley e Alexander von Schlippenbach também são episódicas referências. Pode até não ter sido intencional da parte de quem escreveu as partituras, mas o facto é que se compõe e toca sempre com base no que se ouviu. Resumindo e concluindo: temos aqui um belíssimo CD. “A Última Canção de 2013” é a minha primeira de 2015…