Bande à Part: “Caixa-Prego” (Creative Sources)

Rui Eduardo Paes

A estreia em disco da Bande à Part é uma belíssima surpresa, e inclusive para aqueles que antes tiveram oportunidade de os ouvir ao vivo. Joana Guerra (violoncelo), Ricardo Ribeiro (clarinetes soprano e baixo) e Carlos Godinho (objectos, mais concretamente caixas de madeira, pratos, balões, bolas de bilhar, campainha de bicicleta, etc.) apresentam-nos uma música de câmara improvisada cujas referências estão, muito claramente, na composição erudita do século XX para cá. E se momentos há em que somos remetidos para a não-linearidade de um Morton Feldman, com os sons a vogarem no ar, logo a seguir surge uma forma quase stravinskyana ou pequenos apontamentos individuais mais conotáveis com o pós-serialismo.

Ainda assim, e porque se trata de improvisação, a interacção de grupo é completamente aquela que encontramos na tendência a que Derek Bailey chamou «não-idiomática» e até no jazz criativo – o que significa um muito objectivo tipo de discurso e de intensidade. Intensidade, de facto, mesmo que as atmosferas criadas tenham uma aparência de serenidade. “Caixa-Prego” é um tratado sobre a energia, ou melhor, sobre as formas com que esta pode ser gerida e ministrada. Nesse empreendimento, o que ainda mais intriga é a elegância desta música nunca diluir o seu carácter orgânico. É como que uma Vénus de Milo esculpida com barro.