Space/Time – Redemption

Milford Graves / Bill Laswell: “Space /Time – Redemption” (TUM Records)

TUM Records

Rui Eduardo Paes

Quando Milford Graves e Bill Laswell começaram a fazer concertos em duo no The Stone e em outros pequenos espaços de Nova Iorque, instalou-se a surpresa, agora amplificada pela edição do primeiro álbum de estúdio do projecto, “Space/Time – Redemption”. À partida, nada pareciam ter em comum. Que afinidades seria possível estabelecer entre um histórico do free jazz, alguém que tocou com Albert Ayler, Giuseppe Logan e Don Pullen, e um músico/produtor que tem realizado trabalho nas áreas do jazz de fusão, do rock, do funk, do dub, do ambientalismo e até da world music, conhecido pelo seu envolvimento na viragem para a electrónica dançante de Herbie Hancock?

Nenhuma? Nada disso: ambos tocaram com Sonny Sharrock. O primeiro quando Sharrock era praticamente o único “free player” que tocava guitarra (“Black Woman”, 1969) e o segundo no regresso à cena do Jimi Hendrix da “new thing”, enquanto membro da superbanda Last Exit, na qual estavam igualmente integrados Peter Brotzmann e Ronald Shannon Jackson. Essa coincidência é, de resto, explorada no presente disco, com uma improvisação intitulada “Sonny Sharrock” que tem início com uma melodia do infelizmente desaparecido músico, “Auld Lang Syne”.

Mais tarde, muito mais tarde, outra personagem contribuiu para que uma ligação indirecta entre eles se formasse: John Zorn. Tocaram ambos, igualmente, com o saxofonista e é muito provável que tenha sido este a sugerir a parceria a dois. Se assim foi, trata-se de um golpe de génio, até porque vai ao encontro de uma máxima de Laswell, «nada é verdadeiro, tudo é possível». O homem que tornou o baixo eléctrico num instrumento protagonista tem desenvolvido toda a sua carreira juntando a si músicos de relacionamento improvável, e ainda por cima com resultados verdadeiramente surpreendentes. Um exemplo: a junção de John Lyddon, dos Sex Pistols e depois dos PiL, com Afrika Bambaataa.

Milford Graves conta hoje com 74 anos de idade, mas (talvez devido à prática de artes marciais, que ainda mantém?) o que o ouvimos fazer neste álbum, de tão fisicamente exigente, deixa-nos de queixo caído. A integração do mestre com Bill Laswell surge com a maior das naturalidades, e não propriamente por se colocarem ambos no plano rítmico. Aliás, o constante interesse que esta música nos suscita está no facto de o baixista trabalhar harmonicamente e com elementos melódicos, recorrendo às imensas possibilidades de uma pedaleira de efeitos e processamento.

Laswell surge em vários registos, ora integrando-se com as texturas da percussão, ora saturando o espectro sonoro com aquele tipo de vibração suja e subgrave que é sua imagem de marca. Num dos temas, “Autopossession”, limita-se mesmo a dar uma discretíssima cor de fundo àquele que é um magnífico solo de Graves. Confirma, desse modo, o que a própria mistura (sua) já vinha deixando perceber: a grande estrela deste encontro congeminado no céu é o baterista, não ele. Este CD é o seu tributo a um pioneiro, e pôde fazê-lo em vida do mesmo, ao contrário das homenagens que editou a Bob Marley e Miles Davis.

  • Space/Time – Redemption

    Space/Time – Redemption (TUM Records)

    Milford Graves / Bill Laswell

    Milford Graves (bateria, percussão); Bill Laswell (baixos eléctricos, electrónica)