Des Pas sur la Neige

Eve Risser: “Des Pas sur la Neige” (Clean Feed)

Clean Feed

Gonçalo Falcão

Há muito tempo que não tinha tanta dificuldade em escrever sobre um disco. Ouvi-o minuciosamente, porque precisava de ter a certeza. Cinco estrelas é uma classificação que guardo para coisas muito especiais, daquelas que há poucas e a este gostava de dar seis (e sabem que eu não sou um mãos largas das estrelas). Este disco – sei-o agora com segurança – merece-as totalmente. Música rara, especial.

Vamos tentar dar a isto a dignidade que a música merece… 

Capítulo 1: o piano

O instrumento tem, desde a sua invenção, uma natureza solista e por isso não há pianista que não se aventure neste território. Mas, de facto, não é fácil fazer concertos a solo que sejam interessantes e originais, marcantes pela sua novidade e beleza. “Des Pas sur la Neige” é um desses raros momentos em que tudo se une para criar música desconfortavelmente nova e confortavelmente bela. Em que parece que passou por ali um anjo.

Eve Risser usa técnicas de “expansão” do piano, ou seja, uma série enorme de invenções que foram sendo desenvolvidas por vários pianistas ao longo dos tempos para ampliar a capacidade expressiva do instrumento: molas nas cordas, abafadores, pratos, papéis, bolas de ping-pong, um enorme número de objectos que alteram o som “natural” do instrumento e abrem novas possibilidades. E conhece-as todas, usando-as com um enorme virtuosismo. Conhece-as perfeitamente, sabe em que é que resultam e como é que se podem misturar. E tem a capacidade técnica para as conseguir usar em simultâneo sem precedentes. Mas... 

Capítulo 2: a música

Ouvir este disco é uma experiência extraordinária, pois sentimos que estamos a viajar num mundo novo, a remover uma porta que estava só entreaberta. Era um território já conhecido, sabíamos de amostras e de imagens ao longe, mas ninguém tinha ido lá realmente, tinha pisado e andado por ali, explorado em profundidade até ficar com total à-vontade, até ser nativo o que antes era exótico.

Dito isto, convém ressalvar que a questão não é puramente técnica, não se trata do prazer de ouvir uma nova forma de tocar, como quem vê finalmente bater o recorde do salto em altura, mas de juntar a esse espanto um enorme sentido musical, uma beleza natural e profunda. Ouvimos com prazer os sons a sucederem-se e a criarem uma narrativa. São gentis e interessantes, pouco importando se é ou não muito difícil extraí-los do piano. Os três solos usam o mesmo modelo: elementos repetitivos instalam uma estrutura para a música e esta, por sua vez, sustenta os desenvolvimentos solísticos mantendo o discurso coerente, pois é sobre essa base estável que a improvisação vai encaixando criativamente as mais imprevistas soluções. 

Se nos focamos na música e na execução somos surpreendidos por uma técnica que parece inumana, demasiada. Ouvimos o detalhe sem perceber como é possível fazer aquilo, mesmo sabendo como se faz. Impressiona o virtuosismo. Mas se nos afastarmos destas questões para um plano puramente sonoro, ouvindo apenas e tentando perceber o que está a acontecer, o fluir das ideias, a música envolve-nos e tudo se torna lógico, bom-senso surpreendente. 

Capítulo 3: o disco 

Coloco facilmente este disco na élite mundial dos solos de piano, no magro grupo dos que passaram além da Taprobana. Não conhecendo o catálogo todo da Clean Feed, mas também não sendo um comprador pontual, sei que este é um de poucos, um ponto altíssimo nos mais de 300 títulos que a editora já publicou. Um disco absolutamente extraordinário que espero venha a ter o mesmo sucesso do “Koln Concert”de Keith Jarrett, que comemora hoje 40 anos e vendas superiores a 3,5 milhões. Porque a música merece.

  • Des Pas sur la Neige

    Des Pas sur la Neige (Clean Feed)

    Eve Risser

    Eve Risser (piano, piano preparado)