Creation

Keith Jarrett: “Creation” (ECM)

ECM

Gonçalo Falcão

Keith Jarrett criou um mundo muito próprio nos seus solos, um mundo único, belíssimo, intenso. Partindo de uma “blank mind”, como ele diz, senta-se ao piano e vai moldando a música que aparece à medida que a cria. Faz poucos concertos por ano, gerindo com sabedoria a intensidade e a singularidade de cada actuação. Ouvir um concerto seu é uma experiência quase mágica de quem vê do nada surgir alguma coisa.

O famoso “Köln Concert” de 1975 é um dos discos mais extraordinários da música do século XX, um momento de beleza transcendental; nunca mais o pianista conseguiu atingir aquela beleza superior: além dos discos registados em estúdio (“Facing You”, “Staircase”, “The Melody at Night”, etc.), as gravações ao vivo em Quioto, Osaka, Nagoya, Tóquio, Milão, Bregenz, Munique, Hamburgo, Paris, Londres, Viena e Rio de Janeiro dão-nos diferentes perspectivas sobre a evolução dos seus solos, quase todos muito bons ou excelentes mas não supranaturais como o da Opera House de Colónia.

Para comemorar os seus 70 anos, Jarrett resolveu lançar dois álbuns, um deles precisamente de solos de piano gravados ao vivo. A novidade desta edição é que, pela primeira vez, ouvimos apenas trechos seleccionados dos concertos, em vez de actuações completas, como tem sido hábito. Viajamos por Quioto, Tóquio, Toronto, Paris e Roma, de Abril a Julho de 2014, seguindo os destaques escolhidos daquelas noites.

Sendo um admirador confesso desta faceta da música do pianista americano, por muito que quisesse elogiar ao extremo este novo lançamento da ECM em nome da verdade não o posso fazer. Lentos, tantas vezes previsíveis, contínuos, sem inflexões, os temas mantêm uma enorme beleza, mas sem novidades ou momentos particularmente entusiasmantes. Desprendem-se do piano como se o cérebro de Jarrett estivesse mais lento e sem capacidade de arriscar no desenvolvimento de ideias pouco comuns ou de cortar exposições fáceis para tentar descobrir outras especiais.

Este formato de “best-off” também não é o melhor (ou então os concertos foram de facto mais do mesmo, sendo que o mesmo é já muito bom), o que faz com que este seja um disco para completistas, isto é, aqueles que não resistem a ter toda a discografia de Jarrett, mas é dificilmente recomendável a quem está à espera de música surpreendente.

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    Keith Jarrett

    Keith Jarrett (piano)