Samuel Blaser Quartet: “Spring Rain” (Whirlwind Recordings)

Rui Eduardo Paes

De um trombonista não se esperaria um disco de homenagem a um clarinetista (Jimmy Giufffre), mas a verdade é que Samuel Blaser não é um trombonista comum. Se a sua forma de tocar está no cruzamento dos legados de Roswell Rudd e Albert Mangelsdorff (deve a este o gosto pelos multifónicos), que são os melhores alicerces trombonísticos que podemos imaginar, sempre tem procurado levar o seu instrumento mais além. Assim sendo, porque não dar-lhe uma sonoridade amadeirada? É o que acontece, uma vez por outra, em “Spring Rain”.

O músico suíço que ouvimos em 2014, no Porto, com Baldo Martínez, Dominique Pifarely e Ramón López, e este mês vamos encontrar em Coimbra com Marc Ducret fá-lo neste disco com outros acompanhantes de luxo: Russ Lossing em teclados, Drew Gress em contrabaixo e Gerald Cleaver na bateria funcionam como as partes de um músculo vital, um coração a bater, mas ainda assim é um brilhantíssimo Lossing quem se destaca por trás de Blaser, com uma mão no piano de cauda e a outra no Fender Rhodes ou dividindo-se entre este e o piano eléctrico Wurlitzer e entre o Wurlitzer e um MiniMoog. O resultado é grande música, solidamente instalada sobre a tradição do jazz, mas com uma inventividade deveras surpreendente.